23.9.16

Agora


Ficou fácil de entender
O porquê de te ver sempre sem ninguém
É que não tens como aguentar por muito tempo
Os indivíduos que com maior frequência te assediam
E te causam tantos prejuízos

Canalhas mau intencionados
Mentirosos compulsivos
Bêbados inveterados
Sádicos enrustidos
Psicopatas dissimulados
Desajustados de todos os tipos

Não é o que mereces, longe disso
Mas às vezes te vejo boba demais
Te entregas totalmente, corpo e alma
Sem avaliar bem os perigos
E assim acabas por atrair esses pervertidos

22.9.16

Não se carregam escritas na face


Frases como:
Eu odeio o mundo
Quero te matar
Estou tão infeliz
A ponto de me suicidar

Na maior parte do tempo
Os sentimentos correm por dentro, em silêncio
A dor é espasmódica, cursa em ciclos
O tormento é convulsivo, progressivo
E a erupção pode vir a qualquer momento

Mas mesmo assim conseguimos a proeza
De transitar pelas calçadas
Com o olhar insuspeitável e distante
Como se nada estivesse acontecendo
E tudo em perfeito equilíbrio

21.9.16

O relacionamento virtual


Por mais convincente que possa parecer
Não consegue ser real

As redes anti-sociais aparentam nos aproximar
Mas só nos afastam ainda mais

Funcionam como agentes mutagênico em nosso DNA
Nos priva e nos faz acovardar diante do mais nobre dos ofícios: amar

Não matam a sede de paixão
Não acabam com a solidão

Resolvem  no máximo o problema mais superficial
O dá fluência do líquido seminal

20.9.16

Naquela última noite


Estavas tão assustada
Querias falar
Precisavas falar
Falar e falar
E eu ocupava-te impiedosamente a boca
Com minhas insistentes investidas
Insensível e sedento
Só enxergando minhas carências
Guiado unicamente pelo desejo
Não percebi o que se passava
Não respeitei o teu momento
Esse foi só mais um de meus erros
Perdemos a chance do entendimento
E agora não há mais tempo
Choveu, choveu,
Foi apagado o incêndio
O fogo não passará mais por aqui
Mesmo que tentemos reacendê-lo
Mesmo que mudem os ventos

19.9.16

Não perca seu tempo tirando minhas medidas


Não tenho a intenção de ser enterrado
E a cremação não me parece sustentável
Decidi que meu corpo será doado
E se o que restar de mim
Ainda for de alguma serventia
Que tudo seja aproveitado
Até o último pedaço
Com o respeito que se faz necessário

16.9.16

Contarei nossa história


A qualquer um que me estenda a mão
E a repetirei quantas vezes precisar
Pois só desgrudarei a barriga deste balcão
No dia em que vieres me buscar
Mesmo sabendo que não costumas
Sujar teus pés neste tipo de lugar

15.9.16

Como te olhar


E não poder te tocar?

Como te tocar
E não querer ser um contigo?

Como ser um contigo
E achar possível retornar ao mundo dos vivos?

14.9.16

A Dor maldita


Feroz Rainha expansionista
Nunca recua de seus intentos
A guerra que travou durante décadas
Só se encerrou quando percebendo que perderia última batalha
A mais sangrenta e maior das carnificinas
Numa manobra engenhosa em sua estratégia
Apunhalou pelas costas a palavra Amor
Roubou-lhe os alfarrábios proibidos
E o lançou sobre os campos aonde ocorriam os extermínios
O marior de todos os feitiços
Conseguindo a proeza de estender seus domínios
Para além das fronteiras do espaço e do tempo
Transformando todo o povo de seus novos reinos
E a legião de corpos mortos e mutilados
Em meras estátuas paralisadas ao relento
Calando os gritos de dor e desespero
Condenado tudo e a todos à eterna podridão e silêncio
E não existem registros em arquivos de um antídoto
Ou de quanto tempo poderá durar tal encantamento

13.9.16

Quero que as palavras que tinha para te dizer


Fiquem cada vez mais volumosas
Tão imensas que me parem na garganta
E não possam ser pronunciadas

Tão pesadas
Que a gravidade me force a deglutí-las
A processá-las nas entranhas
E resignificá-las

Que ao me obrigar a colocá-las para fora
Pelo lado oposto das ofensas mundanas
Já estejam irreconhecivelmente desarmadas
Mesmo se submetidas a uma revista detalhada

12.9.16

Amor exagerado


É cristal dos mais delicados
Que quando imerso
Numa atmosfera de agudos extremados
Explode estilhaçado em mil pedaços
Tornando-se entulho
Inútil e transfigurado

9.9.16

Para mim


Não existe lugar mais triste no mundo
Do que um brechó, essas lojas de usados
Não sei bem por que, mas sempre penso o pior

Penso que o vestido de noiva
Garbosamente exposto na vitrine
Seria para um casamento que não aconteceu

Que as roupinhas de bebê
Cuidadosamente empilhadas sobre o balcão
Vestiriam o fruto de um amor que não nasceu

Que o paletó empoeirado
Com um lenço delicadamente dobrado e esquecido no bolso
Foi de alguém que nem por seus antigos pertences será lembrado

Que as blusas desfiadas, calças brilhando nos fundilhos
Camisas faltando botões e com os colarinhos puídos
Não deveriam ser vendidas mas sim doadas para quem mais precisa

Que os calçados, bolsas, cintos, sempre muito usados
Sinto-os carregados demais em histórias
Quando os tenho nas mãos, acho-os muito pesados

Que os relógios, brincos, colares pulseiras
Estão à espera de novos pulsos, pescoços e orelhas
Que possam resgatá-los do ostracismo lhes devolver o brilho

Que os livros, discos e filmes misturados nas estantes
Preferências e universos culturais tão contrastantes
Viraram uns poucos trocados para garantir algum alimento no prato

Que as paisagens e retrados pintados por mãos nitidamente amadoras
E que tristemente disputam espaço nas paredes
Já serviram para alegrar os mais diversos ambientes

Que as fotos antigas, famílias imensas reunidas
Exercem um estranho fascínio sobre uma pessoa
Que se interessa em colecionar mortos que não são seus

Que as cartas escritas de diversas partes do planeta
Postais com selos raros e souvenires trazidos dos lugares mais exóticos
Não tem qualquer significado para quem os vê assim reunidos numa caixa de sapatos

Que a louça manchada, as taças lascadas, a prataria torta e oxidada
Precisariam de um bom restauro
Para terem ainda alguma serventia numa refeição em familia

Que os móveis imensos, eletrodomésticos complexos
Alguns intactos outros nitidamentes desgastados
Vieram de lares desfeitos e tornaram-se inúteis para seres solitários

Que quando passando por uma rua tranquila se vê uma faixa: Família vende tudo!
Não é triste pensar que tudo que foi juntado por tantas vidas em tantas décadas perdeu o sentido?
E que até a casa até vai junto podendo desaparecer desse mundo?

É assim que raciocino
Sei que é exagero, mas é inevitável
Minha mulher não se incomoda com isso e pensa mesmo tudo ao contrario

8.9.16

Quanto maior o não


Menor o meu chão
Preciso aprender a voar
Enquanto tenho opção

6.9.16

O que é feito dos sonhos


Que não mais lembramos
Ou conseguimos registrar?

Que quando vividos
Nos pareciam tão importantes e nítidos?

Estarão arquivados em algum outro mundo
Cuidadosamente escondidos?

Ou será que essa matéria-prima bruta
Que mereceria ser trabalhada com carinho

Desaparece simplesmente
Acabando sem deixar vestígio?

Se for assim, é incompreensível
Um grande desperdício!

5.9.16

Amor que acaba e não termina


É como um fim de tarde que se eterniza
Onde não se vê mais o sol no horizonte
As sombras são longas e a luz baça
A tudo envolve e (ainda) ilumina

Mas ao insistir em permanecer (por não aceitar perder)
Não permite que o firmamento se vista de negro
Que descansem o sentimentos
E que a vida possa prosseguir no outro dia

2.9.16

Amor que se vive não morre


É planta enraizada na memória
Aninhada num horto de espécies raras
Rasteiras, arbustivas
Trepadeiras, arbóreas
Perenes e decíduas

Em arranjo orquestrado
Eclodem em harmonia
Cores, aromas e sabores
Cada qual no seu tempo
Cada uma de um jeito
Para deleite do amante extasiado

1.9.16

Mantenha teus olhos abertos


E fixa-os em mim
Minha trôpega Rainha
Musa bêbada
Deusa entorpecida
Vem, sai da cama
Apoia-te neste braço
E resolve teu problema mais urgente
O vômito iminente
Antes que inundes nosso quarto
Com o pouco que comeste
E muito do que bebeste
Nesta noite de amor desenfreado

Depois um banho seria bem vindo
E enquanto te purifico
Te bajulo
Minha amada
Te abraço
Meu mundo
Te idolatro
Me fundo de novo contigo
E da próxima vez
Sejamos mais sensatos
Deixando de lado
Os exageros de Baco

31.8.16

Pro dia de hoje


O que se tem
É só mais uma noite

30.8.16

Somos o que somos


E não há nada que se possa fazer quanto a isso

E conforme o tempo caminha
Dos outros cada vez mais ele nos distancia

Nos fundimos em nós mesmos
Ainda que isso nos assuste
E cause estranhamento

Mas esta condição que se consolida
Pode tornar-se amigável
E ser vivida de forma bastante tranquila
Basta nos acostumarmos

29.8.16

Das pedras que me atiram


Recolho as que me acertam
E vou enchendo os bolsos

Assim que as tenho em quantidade
Lapido-as com cuidado
Despertando-lhes uma a uma as qualidades

Aí monto um colar
E passo a exibir seu brilho
Pendurando-as no pescoço

26.8.16

Foi só quando finalmente entendi


Que era da tua boca que saia 
A rajada de balas
Sempre uma mesma palavra: 
Acabou, acabou, acabou!
É que me vi atingido
E sem conseguir me defender
A fala ficou-me engasgada

E agora mortalmente ferido
Diante da porta fechada
Vendo o vai e vem
Da tua chave pendurada
Com a certeza de ter te perdido
Meus impropérios todos viraram apenas
Uma poça vermelha de lágrimas

25.8.16

Altiva criatura


Ainda desfila imponente
No meio da Paulista
Sem reparar em como atrapalha
A rotina apressada dos ciclistas
Sob o sol de meio-dia
Preferindo que nunca chegue
A quarta-feira de cinzas

Olhando pro nada
Embarcada no que alucina
Rosto deformado na maquilagem escorrida
Arrastando os farrapos de sua fantasia
Grunhindo incompreensíveis versos
Do samba enredo de alguma escola querida
Eterna vencedora na avenida

24.8.16

Poesia


É um noturno de Chopin garimpado no vácuo
Onde tudo principia

É um Chaplin mudo em sessão exclusiva
Projetado no escuro atrás da retina

É uma lied de Schumann represada na garganta
Quando a boca silencia

23.8.16

O amor é o grande tema da poesia


E por mais que se explore
Esmiuce
Desdobre
Mesmo que lhe dissequem as entranhas
Será sempre misterioso
Não há como esgotar-lhe as características

Também é rebelde
Amorfo
Pegajoso
Imprevisível
Engenhoso
Não pode ser explicado por especialistas

Não aceita discriminação
Despreza conceitos
Como maioria, minoria
Cultura e religião
Independe da vontade
Goza de autonomia

Não se prende a expectativas
Nunca oferece garantias
É fruto do passado
Desconhece o futuro
Vive o momento
Único tempo que valoriza

22.8.16

Poemas são braços


Que quando abraçam
Podem tanto acalentar
Como asfixiar os desejos
De um sonhador solitário

Versos são mãos

Que quando estendidas
Podem tanto estancar a hemorragia
Como socar a face ferida
Daquele frágil que precisa ser tratado

Palavras são dedos munidos de unhas afiadas

Que quando usadas
Podem tanto acariciar
Como retalhar os sentimentos
De quem ama e deseja ser amado

19.8.16

A sensação que ficou


É que terminamos sem perceber
Que o que primeiro acabou
Era muito menos do tudo que havia
E ainda precisávamos conhecer

É que faltou-nos visitar mais os sentimentos
E não ter apenas para poder dizer: temos
Mas usar o que foi guardado
E não deixar que aprodrecesse com o tempo

18.8.16

Ambos vencemos


Qundo em nossa guerra particular
Um de nós se serve dos lençóis
Como bandeira da paz
Sem desistir de lutar
Mas deixando de brigar

17.8.16

Es lamentable


Que en la vida
Ni siempre hay coherencia
Entre lo que se hace
Y lo que se piensa

Se minha saliva fosse tinta


Teu corpo todo eu pintaria
E reavivria teus tons
Dando demão sobre demão
A cada nova visita

16.8.16

Mon amour


S'il vous plaît
Assurez-vous de me lire
Et donnez votre opinion
Parce que tout ce que je écris
Bien qu'il ne soit pas toujours lié à vous
Il est pour vous et votre appréciation

A taça tombada


Ao lado da cama
Que ainda ressente ao perfume do vinho
Foi esvaziada não sei quantas vezes
Até que transbordasse de sentimentos
O coração daquele que só se acalma
Quando atinge o êxtase

Mas também pode ser
Que o conteúdo tenha sido sorvido
Na tentativa de atenuar a dor
De quem chora lamentando perder
Ou  precisando esquecer
Um grande amor