22.2.17

Não ter você


Por um intransponível impedimento
E acumular no peito tanto sentimento
É um sofrimento que não se deve desejar a ninguém

Mas este meu padecer poderia ser ainda maior
Se eu acabasse sabendo que nunca tive o seu amor
Ou pior, que ele sempre foi de um outro alguém

21.2.17

Quem tem a ti não precisa de asas


Não precisa voar
O ninho que construímos no chão
Continua sendo
Sem nenhuma dúvida
O melhor lugar

20.2.17

Não te darei mais nenhum minuto


O tempo que te dediquei
Já foi suficiente
Qualquer quantidade a mais
Seria desperdício

Revisa teus guardados
E manda para o lixo
O que não te pertence
Ou para ti não tem mais sentido

Fica só com que é suficiente
Permitido e lícito
E viva com isso
Apenas com isso

17.2.17

Imaginei


Que para conseguir te esquecer
Bastaria deixar o tempo correr
E não mais me importar
Com o que pudesse acontecer.
Assim o fiz e continuo a fazer
Mas ainda não entendo por que
Todos as manhãs
Nas rugas do meu rosto
O espelho me obriga a ler
Sempre o mesmo texto, que diz:
O tempo passou
Continuará a passar
E as lembranças daquele amor
Não deixarão um dia de te visitar.

16.2.17

Admito


Há excessos em minha poesia
Sempre tão dramática ou efusiva
Mas não é só isso
Na vida me excedo em quase tudo
E o ódio e o amor
Não são exceções nesse conjunto
É que invadido por sentimentos extremos
Vivo sempre muito confuso
Capaz por exemplo de numa fração de segundos
Migrar dos píncaros de alegria
À tristeza encarcerada no abismo mais profundo
E sendo assim acabo me vendo sozinho
Pois não tenho como cobrar de alguém
Algum benquerer ou aceitação
Quando nem mesmo aquele que sente o que sente
Compreende claramente a situação
E de mãos amarradas se vê impotente
Para conter a força do furação
E conseguir organizar seu interior
Minimamente

15.2.17

Você me tem nas mãos


E sabe disso
Basta estalar os dedos e assoviar

Para rapidinho
Me fazer voltar

Abanando o rabo
E latindo

14.2.17

Não precisamos de risos excessivos


Nem de lágrimas forçadas
De discursos vazios
Subterfúgios polidos
Ou desculpas esfarrapadas
Espero apenas que fiquemos calados
E que de mãos dadas lado a lado
O silêncio nos seja suficiente e confortável
Que tenhamos claros os sentimentos
Valorizando e entendendo as diferenças
Nos apoiando e aceitando sem resistências
Para que as vitórias e derrotas
Que a vida nos coloca
Sejam nossas
Mais nada

13.2.17

Meu corpo


É continente
Minha alma é ilha

O farol que guia o barco
E garante a travessia

Entre esses dois acidentes
É a poesia

10.2.17

Se te vejo assim na distância


Desfilnado no passeio
De mãos dadas com um forasteiro

Mesmo sabendo que sobre ti
Não tenho nenhum direito

Morro de ciúmes
Me corroo por dentro

E por mais que tente
Não consigo evitar o questionamento:

Afinal, por que não posso ser
O detentor exclusivo de teus beijos?

Não encerramos nossa história
Continuamos tendo bons momentos

Mas será que nossa constelação de prazeres tem menos estrelas
Do que essa em que viajas com tão intragável sujeito?

9.2.17

Tenho sede


Procuro por tua boca desesperadamente
Mas não vejo água por perto
E ainda há todo um deserto para atravessar

Sigo ciente de que não posso parar
E me esforço para manter isso em mente
Poupando forças e aprendendo a me controlar

Quem me avisa do perigo iminente
É a sombra faminta do abutre
Que me visita repetitivamente sem me tocar

E planando calmamente
Nas térmicas ascendentes
Espera o melhor momento para atacar

8.2.17

O poeta


Que habita em mim
Não me deixa feliz
Diz sempre que está sofrendo
É um suicida incorrigível
Diz sempre que está morrendo

Mas como se compadecer de um ser assim?
Para quem só existem tempos ruins
Alguém tão perverso
Que infecta e esgota as forças do companheiro
Parecendo não entender
Que precisa do hospedeiro vivo
Para também continuar vivendo

7.2.17

Hoje


No mundo
Há muito barulho
Pouco se explica
Mas tem fala pra tudo

6.2.17

Amor é sopro


Brisa
Rajada de vento
Força que ativa o moinho de dentro

Se parado muito tempo
A ferrugem engripa o engenho
E fica difícil retomar o movimento

3.2.17

Certos amores


Nos tocam mas não penetram a carne
Apenas tangenciam os sentimentos
São hábeis em nos trazer alegrias
E arrefecer os desejos (às vezes tão intensos)

Estes mesmos amores
Ainda que não nos conheçam por dentro
Podem bem matar a sede de prazeres
Poupando os amantes de dores e tormentos

Amores assim, quando decidem que já é tempo
Sentem-se livres para partir
Entendendo como natural o distanciamento
Pois acreditam que sem compromisso não há sofrimento

E embora não deixem maiores saudades
Poderão retornar num outro tempo
Amparados no que de fato ficou de bom
A lembrança daqueles momentos

2.2.17

Cai a noite


E tua casa nunca foi tão grande
Nem esteve tão vazia
Pegas o telefone e me exiges a presença
Para que te preencha
Com tudo o que foi anunciado:
Risos, gozos, espasmos e afagos

Atendê-la será perfeitamente viável
Mas desde já fica aqui o combinado
Que depois de refastelada, concluído trabalho
E antes de ser dispensado
Preciso que me pagues e não me cobres palavra
Não faço questão de beijos ou abraços

É assim que deve ser feito
Faz parte do contrato
E deixo avisado que numa próxima será menor o teu tempo
Pois como sei que vais gostar (e é só o que ofereço)
E para conseguires um outro momento, com o mesmo empenho
Não poderás mais negociar tentando economizar teu dinheiro

1.2.17

Prepara-te para mim


Foi longa a jornada
Estou voltando

O tempo só fez aumentar minhas vontades
Sonhei muito com este reencontro

Por isso peço um sorriso largo
Um vestido vaporoso e branco

Um decote amplo que emoldure teus peitos
E seja possível admirá-los arfando

Cabelos inicialmente presos
Poucos adornos

Perfumes do campo
Mas que não mascarem os aromas do teu corpo

Boa bebida
Uma mesa farta

Uma melodia suave
Velas espalhadas pela casa

Tuas melhores carícias
Lençóis de maciez testada

Uma boa reserva de beijos
Nossas texturas juntas e delicadamente acomodadas

Se tudo sair assim já poderei morrer feliz
Pois além disso não precisarei de mais nada

31.1.17

Estrelas são buracos no céu


Pontos de luz que revelam existir
Por trás deste teto
Um outro universo
De luminosidade intensa
Abóbada ainda mais imensa
Aonde (as escrituras me disseram)
São de leite e mel rios e cachoeiras
E todas as virgens a que tenho direito
Me esperam nuas e serenas
Com muito vinho
E prazeres infinitos
Bastando para isso
Que eu cumpra com meu destino
E minha fé não esmoreça

30.1.17

O poeta


Não cansa de afirmar
Que nem tudo foi vivido
Daquilo que seus poemas
Insistem em expressar

Sentimentos inconvenientes
Que se impõe tenazmente
Não escolhendo momento
Não respeitando lugar

27.1.17

Percebo


Que tuas falas de recusa
Não passam de inocentes desculpas

Palavras ocas disparadas em rajadas
De uma metralhadora maluca

Ages assim sem saber, tentando não enxergar
Que embora essa história pareça de fato absurda

Todos sabem que amor não escolhe tempo ou lugar
Por isso é injusto que alguém deva arcar com qualquer culpa

Não se pode fugir de amar
Quando o amor te alcança, ele gruda

Se infiltra na carne daquele que ama
E na intimidade dita sentimentos, pensamentos e condutas

Só deixa a vítima após o último suspiro
Pois enquanto estiver vivo (contra seu domínio) é inútil a luta

26.1.17

Me rebaixaste à plebe


Sem acesso à monarquia
Assim que pela primeira vez
Te chamei de rainha

24.1.17

Viver um medo constante


Por ser terra num planeta que é quase só água
Medo de que a tolerância não prevaleça

E que o avanço inexorável das águas
Faça desaparecer toda a diferença

23.1.17

Fica


Não te vás ainda
É madrugada
Chove lá muito fora
Há perigo na estrada
E preciso de ti

Vai

Chegou tua hora
Estas satisfeito, agora some daqui
Não quero que me vejas assim
Não foi de ti que pari
Precisamos prosseguir

20.1.17

Ele tem um coração imenso


E se orgulha muito disso, faz tempo.
Nele parece caber tanto amor, tanto sentimento
Que chega a se confundir
E não saber qual é o foco desse amor extremo
E até mesmo se existe ao menos um objeto definido
Que o tenha tornado assim um ser tão abnegado e perdido

É capaz, que por pura obra do acaso
Num dia qualquer, na rua, sem ser avisado
Seja com ele defrontado
E mal repare na sua presença
Quando reconhecê-lo de imediato
É o que seria esperado

Que acabe por desejar-lhe um bom dia
Até que bem educado
E que siga em seu caminho inabalável
Mantendo o olhar direcionado
Para onde sempre fez questão de manter
Esse seu incorrigível coração alado: o espaço

19.1.17

Tempo e rio


Elementos tão diferentes
Comportamentos idênticos
Nunca param
Nunca voltam
Mudam sempre
Mas se mantém os mesmos
Rigorosamente

18.1.17

O que está escrito


É só o que está escrito

Se há ou não algo de verídico
A dúvida não tem como ser sanada

Mesmo que num esforço hercúleo
Aprofundes a interpretação do conteúdo
Ou examines com lupa as entrelinhas de cada capítulo

17.1.17

De que me serve guardar todos esses escritos?


Poemas datados
Gerados em momentos específicos
Palavras carregadas de sentimento
Que vão descolorindo com o do tempo
E aos poucos se esvaziando em sentido
Ficam até parecendo fantasia sem objetivo
Aberrações paridas do próprio umbigo

16.1.17

Não entendo


Por que insistes em ler minha poesia
Se ela não te toca
Nem parece te dizer respeito?
Poesia só tem serventia
Para quem consegue extrair dela
Algum sentido ou sentimento
E isso precisa fazer alguma diferença no teu dia

13.1.17

E pensar


Que nunca me perdoei por ter ido embora
Assim, de repente.

E que arrastei por tanto tempo
A culpa por nossa história não ter chegado ao presente.

E agora, nesse reencontro patético e comovente
Ficamos em nítido desconforto ao estarmos frente a frente.

Pareando nossas trajetórias
Construídas de forma independente

Às custas de vitórias e derrotas que lemos com facilidade
Nos vincos de nossas faces, hoje tão evidentes

Concluindo que nos tornamos pessoas boas
Mas funcionando com lógicas muito divergentes.

Nenhum impasse grave demais ou intransponível
Se é que concorda, nada excludente.

Contudo, precisaríamos de um tempo que não temos
E um trabalho imenso desde o semear das sementes.

Estamos convictos de que hoje
Temos em comum pouquíssimos interesses.

E entendemos que não vale a pena grandes esforços
Para se chegar a um resultado que pode não ser suficiente.

Porém o que mais intriga é saber
Que se tivessem sido outros os caminhos seríamos diferentes

Será? E o que nos importa isso agora?
Continuamos com nossas vidas, como sempre

E se não nos virmos mais não haverá conflito
Então está resolvido, sigamos em frente!

12.1.17

A recusa


É a morte antes do nascimento
O aceite
É a consagração do oferecimento

3.1.17

Se não for com amor


Não quero.
Se não for por amor
Agradeço
Mas tô saindo.
E por favor
Não se ofenda
Vou por outro caminho.