25.5.17

Enquanto dormes tranquila


Eu do meu lado
Me reviro inconformado
Numa carência explícita
Transbordando de dores de amor
E desejo não saciado
Tendo que aceitar
Como certeza definitiva
O fato de que de hoje em diante
Serei apenas eu comigo mesmo
Apenas mais um solitário

23.5.17

Menino


Espevitado e arteiro
Riacho pequenino
Corre sorrateiro
Driblando relevos
Até se render ao rio
Majestoso e sereno
Mas ainda assim
Imaturo e efêmero
E que em seu devido tempo
Se rende em definitivo
Ao mar infinito

22.5.17

É preciso que te digam


Isso que chamas de amor
E até hoje te choca
Imobiliza
Pela força descomunal
E por não ter explicação

Na verdade não é amor
É doença
Carência
Dependência
Obsessão

19.5.17

Gosto de ver o ator


Que ao entrar no palco
Se transforma
Despe-se do ego
E irreconhecível
Incorpora a personagem

Não gosto de ver o ator
Que sempre representa a si mesmo
E mesmo dando tudo de si
Falta-lhe talento
Ou apenas exercita a sua vaidade

18.5.17

Perdê-la


Foi perder um pedaço de mim
Algo já incorporado
Parte essencial
Para a minha própria compreensão
E por mais tempo do que alguém suportaria
Fiquei sem chão
Numa agonizante catatonia

Mas minha natureza reptílica
Até então desconhecida
Num dado momento se fez presente
E atuou repondo silenciosamente
A parte que me foi subtraída
E hoje quando olho
Para o que era antes uma enorme ferida
E vejo que não há mais nenhum sinal de avaria
Não sinto mais a tua falta
Paguei com juros pesados tudo o que devia
E agora considero justo poder desfrutar
Das coisas boas que ainda me oferece a vida

17.5.17

O vento infla a vela


Com o vento

A vela expressa
Sua natureza errante

Sem o vento

A vela murcha e para
Não vive o que para ela é importante

16.5.17

A fotografia


Já nasce corrompida
A cena se altera
Assim que alguém a registra.
Não é um retrato da realidade
Nasce contaminada pelas fantasias
Presentes naquele que clica.
Pois por trás deste olhar
Há montanhas de sentimentos
Uma cabeça repleta de paisagens
Oceanos inteiros
E vulcões furiosos
Erupcionando conceitos.

12.5.17

Não vale a pena continuar


Já que o riso acabou
E há tempos
A leveza escapou-nos no ar

E tudo que hoje fazemos
É nos exaltar
Causar sofrimento e chorar

É preciso enxugar os olhos
E aceitar
Deixar o tempo passar

Enfraquecer a mágoa
Serenar o pensamento
E deixar o coração perdoar

Assim a saudade poderá renascer
O bônus desse amor reaparecer
E as boas lembranças voltarão a nos visitar

11.5.17

O que me interessa


No jogo da paixão
É sobretudo
Esse eterno movimento das vítimas
Que como peças sem autonomia
São conduzidas de forma cíclica
Do gozo ao fundo do poço
E do fundo do poço ao gozo (de novo)
Por vezes e vezes repetidas
Como se não houvesse saída
Desprezando o aprendizado
E as sequelas que lhes deixa a vida

10.5.17

Temos problemas


Com a distância
Estilos de vida e comportamentos.
Embora nos amemos
Somos antagônicos
Amarrados em nossos extremos.
E mesmo que nossos sóis sejam os mesmos
Jamais nos encontraremos
Pois mal ele se põe aí no oriente
Aqui no ocidente já está nascendo.
O sol me alimenta
Mas para ti é veneno
Presença e ausência deste elemento
É que nos mantém vivos
E é assim que ficaremos
Cada qual no seu lugar
Até que se encerre o nosso tempo.

9.5.17

...me confessou


E eu acreditei
Meio litro de vodca
Todas as noites
Para afogar o nojo
E conseguir suportar
Tantos corpos sem rostos
Sujeitos escrotos
Com quem tem que se deitar
Para obter alguns trocos
...
É só uma fase (ela diz)
Preciso pagar a faculdade
Depois recomeço tudo de novo

8.5.17

Não dá pra aceitar


Estar diante de ti
E não poder te abraçar

Lembrar do teu gosto
E não poder te beijar

Ver os detalhes do teu corpo
E não poder te tocar

Querer o teu sexo
E simplesmente não poder te amar

O que ouço é sempre não, não e não
Sem qualquer justificativa ou satisfação

Então, lamento
Mas agora quem diz não sou eu

Cada um deve seguir o seu caminho
Está decretado o fim da paixão

5.5.17

Estavam iludidos


Pareciam dementes
Deixaram-se levar pela paixão
E como quase todos nessa situação
Enxergavam-se acima do bem e do mal
Prioritários e urgentes
Mas desde o início ficou claro
Que isso não daria bom resultado
Eram muito diferentes
E assim as diferenças logo se impuseram
Deixando-os abalados e até de fato doentes
Brigavam por qualquer motivo fútil
Juntos nunca estavam contentes
E o saldo disso tudo
Logo ficou evidente
É que acabaram tristes
Feridos em seus sentimentos
Fechados em suas mentes
E nem mesmo um possível amor latente
Teve como se desenvolver
Tal era a tensão que se fazia presente
Separaram-se rapidamente
E hoje nem mais se encontram
Quando percebem
Que isto pode acontecer
Num raro acidente
Disfarçam
Mudam de direção
Fixam o olhar no infinito
Aceleram o passo
E tocam em frente

4.5.17

Madrugada


Acordo assustado
Estendo o braço para o lado
E o vazio que encontro
Só não é maior do que a tristeza
E do infinito cansaço
Neste meu corpo frio

3.5.17

Ela


Bebe demais
Fuma demais
Se droga demais
E anônima
Autômata
Mergulha na noite
Com a única intenção
De tentar preencher
Sua infinita solidão

Percorre caminhos malditos
Absurdos para qualquer cidadão
Alega que é necessário correr riscos
Diz que não tem opção
Precisa saber
Se o que sente é verídico
E se há sentido em manter esperança
De nem tudo estar perdido
Ou se vive mesmo imersa na ilusão

Já em alta madrugada
Depois de um ou mais encontros (inúteis) fortuitos
Com o andar cambaleante
As dores dos açoites
E o hálito ressentindo aos vícios
Retoma o rumo de casa
Carregando no peito
O já tão conhecido vazio
Acrescido de todos os superlativos

Cai na cama como alguém que agoniza
Dorme um sono sem fundo (quase defunto)
E como uma criança sonha muito
Mas seus sonhos não se relacionam com seus dias (são só fantasias)
Está cada vez mais convencida
De que a existência é um equívoco
Um labirinto sem saída
E que a vida é um erro de estratégia
Um desperdício de energia

2.5.17

A labareda


Que incendeia os teus olhos
Enquanto arfas
Palpitas
Sacias tua sede de amar
É pura paixão
Cena rara de se observar
Digna de se aplaudir
E divino poder participar

27.4.17

É mais natural chorar do que rir


Todos choramos ao nascer
Ao nascermos o preocupante é não chorar
O choro nos faz sobreviver

Mas para rir é preciso aprender
Ter alguém que nos ensine a enxergar
O lado bom de viver

26.4.17

Cada vez mais obsoleto


Mais sucateado
Mais desnutrido
Craquelado pelo sol

Cada vez mais triste
Mais ardido
Mais desinteressado

Cada vez mais fraco
Mais intragável
Mais desorientado

Homem dos trópicos
Sobrevivente teimoso
Perdido no tempo e no espaço

Sem expectativas no mundo globalizado
Alheio à tecnologia
Esperando apenas o momento de ser deletado

25.4.17

Sol


Estrela única num circo de forças
Onde a regra é o obscuro
Maestro que orquestra o conjunto
Planetas em órbitas que se cruzam
Satélites em números imprecisos
Cometas, meteoros, partículas de todos os tipos
Há milênios em movimento
Sob a batuta de um regente inflexível
E só por isso guardam uma lógica em suas trajetórias
Ainda que aparentem ser livres e sozinhos
Não têm escapatória
Quando o rei se apagar
Acabarão todos engolidos

24.4.17

Amor com amor


Um outro amor
E ainda mais amor
Por um certo tempo
Na balança
Pode até pesar.
Mas aí a carga se espalha
Tudo se acomoda
E lentamente
Os pratos voltam a se equilibrar.
Num mundo de tantos conflitos
Amor não é algo
Que se deva rejeitar
Com ou sem requintes
De todos os matizes
Amor verdadeiro
É sempre bom
Quanto mais melhor
Amor só faz somar.

20.4.17

Lá fora


Cada vez mais perto
Recomeçam os bombardeios

Enquanto aqui dentro
Desaparecem as últimas esperanças de continuar vivendo

Não é fácil abdicar de tudo
Para aquele que há pouco se achava dono do mundo

E agora, só queria continuar respirando
Apesar da poeira densa que sufoca este cômodo

Só queria continuar enxergando
Apesar do blackout que se seguiu ao último flash luminoso

Só queria continuar ouvindo
Apesar do zumbido deixado pelos explosivos

Só queria continuar como um ser inteiro
Apesar do corpo soterrado pelo entulho no desabamento

Só queria continuar existindo livre deste horror
(Não me interessa mais nem mesmo o amor)
E que a morte venha breve me libertando desta dor

19.4.17

Mesmo que a cabeça viaje


E às vezes se perca no caminho
Moro aonde dormem meus chinelos
Ainda que guardados no escaninho

18.4.17

A verdade que até ontem era sólida


Está agora reduzida a uma nuvem de dúvidas
O que parecia claro e indestrutível ainda há pouco
No futuro pode não passar de uma vaga lembrança

Aconteceu justamente o que eu mais temia
Sem perceber fui tirado de sua vida
E contra isso eu nada pude fazer

E agora com o olhar encharcado
Fixo na alternância hipnótica das cores no semáforo
Para-brisa embaçado e sem clareza dos porquês

Me vejo suando frio mãos grudadas no volante
Querendo acionar a seta
Mas impedido de retornar pra você

17.4.17

Houve um tempo


Em que não cansávamos de professar juras de amor
E confidenciar um para o outro
Absolutamente convencidos
De que não conseguiríamos viver um segundo
Se não estivéssemos unidos

Mas o tempo é implacável
E no dia a dia
Castigados pelas rotinas
Fomos nos distanciando
Sem avaliar bem as consequências disto

E pela sucessão de acontecimentos
Cada vez mais imediatos
Seguimos ofuscados
Pensando apenas em apagar incêndios
E honrar aquilo que nos era exigido

Empenhamos energia demais em coisas que não mereciam
E hoje, embora juntos, nos sentimos mais do que nunca sozinhos
Perdemos muito da intimidade que tínhamos e do nosso colorido
Nem nos lembramos mais do antigo compromisso
E continuamos tocando a vida sem a certeza de ainda estarmos vivos

13.4.17

Castelos de areia


São efêmeros
Não são feitos para durar
São experimentos
Ensaios sem compromisso com o tempo
Exercícios estéticos
Que comportam riscos
Erros e acertos
Às vezes são grotescos
Outras até que bonitinhos
É bem verdade
Mas sem muitos encantamentos
Servem apenas para testar habilidades
Ou registrar algo num dado momento
O trabalho conjunto de pais e filhos
Um concurso
Um passatempo tranquilo
Numa tarde de domingo
Mas já se sabe desde o início
Que não estarão mais lá no dia seguinte
Pois não tem como resistir às marés
Às chuvas torrenciais
Aos ventos
E não há nenhum problema nisso

12.4.17

Mais triste


Que sofrer de amor
Por alguém que não te quer

É não ter experimentado na vida
Um amor sequer

11.4.17

Chega de conviver calado


Com o medo mal disfarçado
De um dia voltar pra casa
E saber por um bilhete
Deixado sobre a mesa da sala
Que não terei mais você ao meu lado

10.4.17

Esbarrar nas esquinas


Machucando-se pra valer
Colecionado feridas
Pode ser uma tentativa
Não percebida
De resistir à mudança
De algo grande em nossas vidas

7.4.17

Mais uma vez sonhei que me chamavas


E como qualquer homem
Vitimado por uma paixão desenfreada
Num instante eu aí estava.
Em frente à porta me esperavas
E com a intimidade conquistada
A tão duras penas
Dispensando palavras
Beijei-te a boca
Tomei-te nos braços
E como tantas vezes no passado
Repetimos o ritual
Já tão bem ensaiado
Com música de fundo
Seguimos para quarto.
Tomamos vinho
Comemos frutos
Nos divertimos muito
E isolados do mundo
Nos amamos sem pressa
Até sermos alertados pelo dia
Com seus primeiros raios.
Era o nosso ultimato
E como sempre acontecia
Dormindo calmamente
Eu te deixei sozinha
E saí silenciosamente
Ofuscado pela luz matutina
Para voltarmos às nossas rotinas
Reabastecidos de amor
Temporariamente saciados
E felizes com nossas vidas

6.4.17

Na natureza


É assim que as coisas funcionam
Inicialmente os lobos
Não procuram o confronto
Não encaram
Veem sem dar a entender
Que estão olhando
Circundam a presa
Testam sua guarda
Acham um espaço
Penetram e atacam
Com a certeza
De que o embate
Será breve
E logo vai se resolver
Afinal, serão eles ou você