2.12.16

Sim, me lembro de ti


Mas não é mais de ti que me lembro.
O que hoje carrego em mim
É uma imagem de ti.
Lembrança repaginada
Fantasia contaminada pelo desejo.
Algo que não é mais verdadeiro
Que criei mesmo não querendo.
Resultou em conformidade
Com a minha vontade.
Uma obra esculpida
Nos mínimos detalhes
Ao longo do tempo

1.12.16

Tu carente de carícias


Mesmo admitindo que precisas
Não reages
Te deixas levar pela preguiça

Amor assim não resiste
E antes de vencer a validade
Expira

29.11.16

Por mais que desdigas


A nudez de tua boca
Não esconde
A realidade crua e nítida

Pois quando me aproximo
E me beijas
O gosto da tua saliva denuncia:

Que tuas palavras
Confusas e evasivas
Não passam de estúpidas mentiras!

Que teu hálito quente
É tua alma fluida
E aflita

Que me quer
Não me repudia
E sem mim não respira

28.11.16

O Amor


Brota da areia cinza, insuspeita
Insurgecência cristalina
Flui lenta e contínua
Fonte de especial pureza

Nasce com a certeza
Dos que marcam a existência
Toma fôlego, corpo
Cria um traçado, recebe apoios

Regalos, regatos, riachos
Junção de muitos braços
Bacia, rio caudaloso
Caminho longo e inexorável

Delta impositivo
Sutil e espraiado
Capaz de adoçar oceanos
Mesmo focado
Jamais equivocado

25.11.16

Afinal, o que significou esse amor?


Brutal e efêmero
Fogo-fátuo, hiato no tempo

Por que não restou nada de bom?
Argumentos, poesia

E as poucas lembranças
Que ainda nos atrevemos a evocar?

Parecem imagens desconexas
Ilustrações de uma ridícula ladainha

24.11.16

O poeta é um solitário


Segue em seu barco
Navegando sem considerar as correntes
Desenhando um caminho
Dispensando mapas, bússula
Farol, astrolábio
Cria seu próprio itinerário
Fazendo e desfazendo laços
Atirando ao mar o que julga dispensável
Rimas indignas
Construções medíocres
Versos sem sentido
Alega que é involuntário
É compelido a seguir
Até que seu interior convulsivo
Esteja saciado
Embora isto nunca tenha acontecido
Segue fazendo o que entende como honesto
E julga necessário

23.11.16

Perdoa


Por insistir tanto por tua boca
Sem nem querer saber
Por onde andava o teu olhar

Por insistir tanto por teu corpo
Sem nem querer saber
Por onde andava a tua alma

A paixão nos reduz a um primitivismo
Egoísta e cego
Que é só instinto

Que não pensa
Age sem medir consequências
Só enxerga o próprio umbigo

22.11.16

Na pressa insana da certeza


Antes que a morte nos surpreenda
Amemo-nos com desespero e urgência
Até que esgotemos as forças
E findemos nossa existência
Desfalecidos
Encharcados de dores e desfrutes
Gozos e transcendências
Mas sem culpas ou rancores
Para que nossas insignificantes vidas
Tenham valido a pena

21.11.16

A aliança que ostentavas


Inquebrável, luzidia
Fazia parte do teu corpo
Pois não a tiravas
Nem em nossos momentos
De maior fervor e alegria

Aliança
Que não me causava tanta tristeza
Como a indiferença vazia
Que resultou do fim desse amor
E com a qual me tratas hoje em dia

18.11.16

A Paixão


Embora seja uma fantasia
Faz com que a vítima
Se sinta viva
Alucinada
Destemida

Faz perder a autonomia
Dirige seu destino
E a faz adotar caminhos
Às vezes labirínticos
E de difícil saída

Ela gosta disso
Fica insensível à dor
Seu olhar permanece altivo
Um zumbido agudo no ouvido
E no peito uma contínua taquicardia

Mas um dia
Tudo termina
Isso já foi registrado
Ao longo dos séculos
Por incontáveis escribas

E só o tempo
Senhor dos destinos
É capaz de saber
Como há de terminar
Mais essa viagem entorpecida

17.11.16

Se não houve ilícito


Não pode haver culpa

E sem culpado
Não pode haver condenação

- Então, sumam já daqui
Com este cadáver alvejado no coração!

16.11.16

Quando ficares e eu me for


Sim, porque devo ir antes
Tudo me faz supor
Não vivas o que te resta
Só das lembranças de um ex-amor

Mantenha tuas vontades ativas
As do dia, as da noite
Sem te paralisares pelo vazio interior

E passado um tempo, já atenuada a dor
Se alguém que cruzar o teu caminho
Te despertar o íntimo
E te pedir que proves um novo sabor

Não te prives do que há de mais humano em ti
E mergulha no inusitado experimento
Mesmo sem saber se será de prazer ou de dor

11.11.16

Melhor morrer só


Do que ficar louco
Mantendo consigo
O segredo convulsivo
Que quer lhe arrebentar o peito
Apela para ser expelido
Destrói razão e sentidos
Como um ciclone descontrolado
Irascível e ensandecido
Que quando compartilhado
Com qualquer outro ser vivo
Corre o risco
De não ser compreendido
Ser rejeitado de pronto
Pelo desgosto gerado
E tachado
Levianamente
De monstro assassino

10.11.16

O Amor


Não existe
Para quem não o sente
E por não existir
Não é invocado
Nem mesmo eventualmente
Mas assim que é sentido
Passa a ser chamado
Pois uma vez nomeado
Já está incorporado
E isso é para sempre

9.11.16

Dois seres


Interpenetram-se
Cópula essencial
Em busca do mesmo eixo.
Céu e terra
Espremendo-se
Até que resulte
Um só elemento.
Um fluido denso
Perfumado
E sumarento
Que se difunde
Harmoniosamente
Num universo viscoso
Mas confortavelmente
Receptivo
E liquefeito.

8.11.16

No lago imenso


Limites fora do desenho
Eu diminuto
Ponto claro
No espelho
Flutuo
Sem saber
Se algum ser
Habita o fundo
E lá de baixo
No escuro
Me vê como pequeno traço
Acinzentado
Que no alto
Se movimenta livre
Ao acaso

7.11.16

O gelo


Aprisiona a água
Deixando livre o fogo
Que em sua redenção do efêmero
É cinza e não fumaça

4.11.16

Há algo em mim


Que não sossega
Enquanto não se encerra

Algo que entende
Que nada é para sempre

Que é preciso um fim
Para que o efêmero se torne perene

3.11.16

Palavra


Síntese frustrada.
Extrato ralo que não expressa
A complexidade do que nomeia
Mesmo quando é escrita ou falada.
Que não alcança o significado do Amor
Apenas com quatro letras desenhadas.
E que para se ter uma ideia aproximada
Da dimensão almejada
Precisa ser sentida, discutida, compartilhada
E demonstrada como um teorema da matemática.

1.11.16

Miserável é a criatura


Que irresponsável e tola
Desperdiça a chance de enriquecer
Ao desprezar o que a vida tem de mais valor
A amizade e o amor
Bastando para isso apenas cultivar e corresponder
E o que de mais importante alguém poderia ter?

31.10.16

Não imprimo meus poemas


Deixo-as no ar
Temo que materializados
Morram tristes
De tanto sangrar

28.10.16

Não falar com os pequenos


Sobre as questões que lhes vão aparecendo
É uma crueldade absurda
Por que deixá-los inseguros
Ou sentindo culpa
Por não saberem se é certo ou errado
O que descobrem fazendo
Em baixo dos lençóis
Ou sozinhos no banheiro?

27.10.16

A única queixa efetiva


Em relação à juventude perdida
Que angustia este velho poeta prostático
É a diminuição nítida
Da eficiência de seu jato urinário

26.10.16

Não há como apagar uma história


Esfregando a borracha no papel
Se sangue foi a tinta com que foi escrita
E como numa foto antiga
A imagem desbota, borra
Mas não se esgota

E nem mesmo a tesoura poderá eliminar de vez
Aquele que já deveria ter desocupado a tua memória
O corte pode mantê-los afastados, isso é fato
Mas basta que seus corpos sejam reaproximados
Para observar o perfeito encaixe dos pedaços

25.10.16

Há os que sofrem demais


Sofrem bem mais do que precisariam sofrer
E enquanto sofrem aquela porção a mais
Perdem a oportunidade de ter prazer em viver

24.10.16

Ele voltou


Sentou em sua frente e afirmou
Que não havia nada para ser explicado
Pediu que tentassem de novo
E que toda a mágoa deveria ser confinada no passado
Perguntou se o seu lugar no quarto ainda estava vago
Ela respondeu que sim
Ele então subiu
Trancou a porta atrás de si
E pode ser ouvido pedindo paciência e tempo
Disse por fim que logo estaria pronto
Mas que por enquanto não deveria ser incomodado

21.10.16

O amor


Mesmo de verdade
Pode ficar cansado
Acredite, isso é uma realidade
Acontece com frequência
Quando o amor é sedentário

O amor

Mesmo de verdade
Pode se tornar esclerosado
Acredite, isso é uma realidade
Acontece com frequência
Quando o amor para de ser desafiado

O amor

Mesmo de verdade
Pode ser engavetado
Acredite, isso é uma realidade
Acontece com frequência
Quando o amor deixa de ser valorizado

O amor

Mesmo de verdade
Pode atrofiar como um braço quebrado
Acredite, isso é uma realidade
Acontece com frequência
Quando o amor fica muito tempo imobilizado

O amor

Mesmo de verdade
Pode virar um cadáver embalsamado
Acredite, isso é uma realidade
Acontece com frequência
Quando os pequenos fracassos do amor se acumulam
E não são trabalhados

20.10.16

Pandora


Da primeira vez foi mais fácil aplicar a sentença
Aquele amor infante, ainda que esbelto e galante
Já apresentando defeitos de constituição
Foi condenado e aprisionado
Cabendo certinho numa caixa de sapato
Amarrada com corda de nylon
Ficando por décadas no fundo do armário
Mantido em hibernação

Até que um dia
Tua curiosidade o fez renascer
A liberdade lhe renovou o querer
Deu-lhe força e determinação
E agora adulto recusa a prisão
Alegando que no espaço em que estava
Já não lhe cabe nem mais uma mão
E que precisa estar livre para poder retomar
O que um dia lhe foi tirado
Numa ardilosa conspiração

Mas quem determinou sua reclusão
Não quer ceder a insanos anseios
Nem acreditar em argumentos ingênuos
Pois mesmo tendo se passado tanto tempo
Não foi declarado prescrito o motivo da ação
Esse amor não tem chance de conquistar terreno
Não se pode fazer voltar o tempo
Estão diferentes os protagonistas do enredo
Mas nunca foi perdoada a traição
E mesmo que fique liberto, belicoso e sedento
Já está condenado a vagar para sempre
A esmo e em total solidão

19.10.16

Nunca mais tinham se visto


Mas ela não o esqueceu
Manteve um retrato sobre o aparador
Para sempre poder lembrar
De um tempo em que se bastavam
E que não havia mais nada no mundo
Que os pudesse preocupar.
Ela nunca entendeu o exato motivo que o fez emigrar
E sofreu, ano após ano, até a última lágrima secar.

Eis que, um dia, sem ao menos avisar
Com ar cansado e maltrapilho ele bate à porta.
Ela (atônita) fingiu não o reconhecer
E antes que alguma alegria pudesse demonstrar
Tentou saudá-lo como quem interrompe um afazer
Mas sem conseguir conter o entusiasmo
Logo acabou por abraçá-lo
Convidando-o para entrar.

Ele declinou
Disse que estava por perto
De passagem
Que se lembrou dela
Que teve saudades
E quis vê-la
Para outra vez
Tentar se desculpar.

Pediu água
Bebeu devagar
Agradeceu
E parou de falar
Sem disfarçar a distância no olhar
Despediu-se respeitosamente
Deu-lhe as costas
E retomou seu caminhar

18.10.16

A ideia fixa na cabeça


O nó na garganta
O disparo do coração

O frio na barriga
O suor nas mãos

O amolecimento nas pernas
O comichão que vira tesão

O repertório de esquisitices só aumenta
Quando surge a paixão

E não há como viver plenamente um sentimento
Sem aceitar de corpo e alma a emoção