27.3.17

Tens que ter mais cuidado


Pois tentando fazer tudo ao mesmo tempo
Acabas por não concluir nada direito

Com apenas dois braços
Não tens como abraçar o mundo inteiro

As coisas vão caindo, se quebrando
Ficando pelo caminho

Até que impedida de continuar
Percebe que teus pés estão cravejados com cacos de vidro

24.3.17

Com o bisturi


Se corta
E se faz cirurgia
Com a palavra
Se ilumina
E se faz poesia.

O bisturi exige o conhecimento
Aprendido de fora pra dentro.
A poesia o esclarecimento
Do que é sentido de dentro pra fora.
Ambos instrumentos
Ferramentas preciosas do entendimento.

O bisturi disseca a matéria
Escancara a lógica do corpo
E seu funcionamento.
A poesia traduz a alma
Aquilo que nos faz humanos
Nada mais
Nada menos.

23.3.17

Querida


Os incomodados
Que simulem

Ou cuidem
Das feridas

22.3.17

Minha musa


Com minhas ideias geralmente comunga.
Mas não raro irrita-se com meus pensamentos
Quer mandar em meus comportamentos
Colocar sua ordem na minha bagunça.
Menospreza o que em mim não entende
E mesmo assim se arrisca e me julga.
Comete injustiças por vezes absurdas
Mas apesar de tudo não me causa maiores ferimentos
Acho que no fundo achamos o nosso jeito
E nos entendemos sem termos que recorrer a loucuras
Do contrário não seriam dela os meus sentimentos
Penso que aceitamos bem a recíproca de nossa escravatura.

21.3.17

Vociferavas


Exigindo que eu te deixasse em paz
Que te obedecesse
E parasse de te visitar

Alegavas que do jeito que as coisas iam
A morte de um de nós
Aconteceria numa questão de dias

E agora aqui contigo nos braços
Dribladas tuas artimanhas
Que tentam a todo custo me afastar

Pedes
Suplicas
Que eu nem pense em te soltar

Que te sufoque de beijos
Que te abrace forte
Até parares de respirar

20.3.17

Depois de tanto tempo


No alto da colina
Sentado na varanda
Balançando na cadeira
Vejo passar o trem de minha vida
Pareando memórias
Com o que a paisagem mostra
Posso ter uma epifania
Um ataque de ira
Um choque de realidade
Ou tudo se revelar
Uma grande bobagem

Hoje
Não há espaço
Para fantasias do passado ou miragens
E o que de fato importa
É que o trem da minha cidade
Não costuma atrasar
Após o apito
Fecha a porta
Não atende mais a nenhum grito
E se coloca a rodar
Obedecendo ao que está escrito

17.3.17

Eu queria que soubesses


Que hoje o coração silenciou
E o que de fato ficou
Foi uma outra forma de amor
Que comporta a saudade mas não a dor

16.3.17

Engana-se quem pensa


Que se morre apenas uma vez
Identifico pelo menos três momentos
Não excludentes em que isso pode acontecer

O primeiro é quando morremos para o mundo
E o fim da carne
Simplesmente nos faz desaparecer

O segundo é quando morre a pessoa que nos ama
Nos leva junto sem que nada possamos fazer
E só dentro dela é que ainda mora esse benquerer

E o terceiro é quando precisamos morrer
No interior de quem não mais nos ama
Para liberar espaço e acomodar um outro alguém

15.3.17

Este amor


Não é o do hoje
Mas o de um outro tempo
Uma outra forma de querer.
E ainda que no passado
Não tenha sido reconhecido
É pra lá que deve ser devolvido
E precisará permanecer.

14.3.17

Não há tempo ruim acima das nuvens


Que seja este o reino
Em que finalmente conquistes
O fim das tuas dores
E a tua tão merecida paz.
Agora vai e descansa tranquila
Mãezinha querida
E leva contigo a certeza
De que o amor e a saudade
Nunca irão te abandonar.

10.3.17

Trago dentro de mim


Uns bichinhos
Que me sufocam
Me confundem o entendimento
Me imobilizam o pensamento
E não me deixam em paz.
Mas não os consigo vomitar
Chutar-lhes os traseiros
Botá-los pra fora
Expurgá-los inteiros
Xingá-los como merecem
E fechar as portas
Impedindo-os de voltar.
Às vezes surgem sorrateiros
E logo vejo que são muitos
Mostram-se sempre zombeteiros
Arruaceiros
Fazendo algazarras
Ameaças
Tripudiando de tudo
Afirmando que sou cativo
E que nunca mais vão me deixar.
É assim que tenho vivido
Como prisioneiro desses demônios
Verdadeiros parasitas viscerais
Mas agora que você está comigo
E se quer mesmo ajudar
Precisamos de um plano efetivo:
Terá que ficar ao meu lado
Colada ao meu corpo
Pelo tempo que for preciso
Pois assim que eu avisar
Ou no exato momento
Em que deixarem visíveis
Seus chifrinhos
Seus rabinhos
Ou forem ouvidos seus sarcásticos risinhos
Terá saber precisamente aonde estão
Em quais orifícios
Para arrancá-los com a mão
Um a um
Sem titubear
Ou pensar nos riscos de mutilação.
Confiná-los num baú reforçado
Atado com grossas correntes
Trancá-lo com vários cadeados
Desaparecer com as chaves
Levá-lo urgentemente
Para um lugar distante e deserto
E enterrá-lo o mais fundo que conseguir
Para que nunca mais seja encontrado
E a vida assim possa prosseguir
Sem que sejamos incomodados
Por esses encapetados mirins.

9.3.17

...como o astronauta


Que valoriza mais a nave
Seu veículo
Que o próprio infinito

Não consegue ver no céu
A beleza das estrelas
Que deveria ser de fato seu objetivo

8.3.17

Recuso-me a fazer a cama


Que até há tão pouco tempo
Nos servia
Seria fechar um ciclo
E a isso eu não me permitiria

7.3.17

Meu amor


Se impõe de forma bruta.
Por onde passa
Desajeitado
Esbarra
Derruba
Machuca.
A cada incidente
Pede desculpa.
Mas por ter a certeza
De que é real
Não recua.

6.3.17

Pressionas teu corpo


Quase rompendo a vidraça
Enquanto olhas para o vulto
Que no escuro
Sob a tempestade
A passos largos se afasta.
Teu desespero é tanto
Que com o rosto
Besuntado de maquilagem e lágrimas
Desenhas no vidro uma grotesca máscara.
Pintura pasma e abobalhada
De quem não aceita
Não acredita
Que mesmo um amor verdadeiro
Um dia fracassa.

3.3.17

Me machuquei muito


Quando insisti em te amar.
E aquilo que pensava eterno
Tão rápido como veio
Terminou sem avisar.
Todos viram
Só eu é que não vi.

Rastejei
Implorei
Me humilhei
Me diminui.
Disseram que não era eu
Nem mesmo eu me reconheci.

Cedi bem mais do que recebi.
E agora depois do fatídico desfecho
Admito que todo o tempo
Estive consciente e voluntariamente concedi.
Por isso juntei todo o prejuízo e tratei logo de assumir
Pois não me arrependo de nada do que vivi.

2.3.17

Pobre daquele


Que se faz cais
E suas lembranças são correntes
Que impedem o amor de zarpar.
Vive atado a um corpo inerte
Que desfigurado apodrece
Condenando-se apenas a ficar
Vendo o tempo passar.

1.3.17

Frequentemente me invade


Uma enorme preguiça
De tentar entender o mundo

Por isso escrevo

É mais fácil conceber
Uma visão própria sobre tudo

24.2.17

Mudaste


Melhor dizendo, mudamos.
Não há como disfarçar
É evidente.
Vejo pelo modo como nos comportamos
Pelo silêncio constrangedor que nos invade
Quando estamos frente a frente.

Só não entendo
O que foi feito daquele amor imenso
Que um dia juramos
Seria para sempre.
Ele não resistiu ao tempo
E desapareceu tristemente.

É provável que não tenha sido assim
Irreversível desde sempre.
Como foi que não percebemos
O momento em que nos perdemos?
O que fizemos com nossos sentimentos?
Fomos negligentes?

23.2.17

Você não é uma pessoa fácil de se ajudar


Se retrai
Se tranca
Bloqueia as entradas
E repele com silêncio ou palavras ásperas
As investidas de quem tenta se acercar

Também insiste em negar
Que esteja pedindo ajuda o tempo todo
Embora seja indisfarçável a tristeza no seu rosto
E o clamor que carrega no olhar
Revelando a esperança de que um dia voltará a amar

22.2.17

Não ter você


Por um intransponível impedimento
E acumular no peito tanto sentimento
É um sofrimento que não se deve desejar a ninguém

Mas este meu padecer poderia ser ainda maior
Se eu acabasse sabendo (por terceiros)
Que nunca tive o seu amor
Ou pior, que ele sempre foi de um outro alguém

21.2.17

Quem tem a ti não precisa de asas


Não precisa voar
O ninho que construímos no chão
Continua sendo
Sem nenhuma dúvida
O melhor lugar

20.2.17

Não te darei mais nenhum minuto


O tempo que te dediquei
Já foi suficiente
Qualquer quantidade a mais
Seria desperdício

Revisa teus guardados
E manda para o lixo
O que não te pertence
Ou para ti não tem mais sentido

Fica só com que é suficiente
Permitido e lícito
E viva com isso
Apenas com isso

17.2.17

Imaginei


Que para conseguir te esquecer
Bastaria deixar o tempo correr
E não mais me importar
Com o que pudesse acontecer.
Assim o fiz e continuo a fazer
Mas ainda não entendo por que
Todos as manhãs
Nas rugas do meu rosto
O espelho me obriga a ler
Sempre o mesmo texto, que diz:
O tempo passou
Continuará a passar
E as lembranças daquele amor
Não deixarão um dia de te visitar.

16.2.17

Admito


Há excessos em minha poesia
Sempre tão dramática ou efusiva
Mas não é só isso
Na vida me excedo em quase tudo
E o ódio e o amor
Não são exceções nesse conjunto
É que invadido por sentimentos extremos
Vivo sempre muito confuso
Capaz por exemplo de numa fração de segundos
Migrar dos píncaros de alegria
À tristeza encarcerada no calabouço mais profundo
E sendo assim acabo me vendo sozinho
Pois não tenho como cobrar de alguém
Algum benquerer ou aceitação
Quando nem mesmo aquele que sente o que sente
Compreende claramente a situação
E de mãos amarradas se vê impotente
Para conter a força do furação
E conseguir organizar seu interior
Minimamente

15.2.17

Você me tem nas mãos


E sabe disso
Basta estalar os dedos e assoviar

Para rapidinho
Me fazer voltar

Abanando o rabo
E latindo

14.2.17

Não precisamos de risos excessivos


Nem de lágrimas forçadas
De discursos vazios
Subterfúgios polidos
Ou desculpas esfarrapadas
Espero apenas que fiquemos calados
E que de mãos dadas lado a lado
O silêncio nos seja suficiente e confortável
Que tenhamos claros os sentimentos
Valorizando e entendendo as diferenças
Nos apoiando e aceitando sem resistências
Para que as vitórias e derrotas
Que a vida nos coloca
Sejam nossas
Mais nada

13.2.17

Meu corpo


É continente
Minha alma é ilha

O farol que guia o barco
E garante a travessia

Entre esses dois acidentes
É a poesia

10.2.17

Se te vejo assim na distância


Desfilnado no passeio
De mãos dadas com um forasteiro

Mesmo sabendo que sobre ti
Não tenho nenhum direito

Morro de ciúmes
Me corroo por dentro

E por mais que tente
Não consigo evitar o questionamento:

Afinal, por que não posso ser
O detentor exclusivo de teus beijos?

Não encerramos nossa história
Continuamos tendo bons momentos

Mas será que nossa constelação de prazeres tem menos estrelas
Do que essa em que viajas com tão intragável sujeito?

9.2.17

Tenho sede


Procuro por tua boca desesperadamente
Mas não vejo água por perto
E ainda há todo um deserto para atravessar

Sigo ciente de que não posso parar
E me esforço para manter isso em mente
Poupando forças e aprendendo a me controlar

Quem me avisa do perigo iminente
É a sombra faminta do abutre
Que me visita repetitivamente sem me tocar

E planando calmamente
Nas térmicas ascendentes
Espera o melhor momento para atacar