20.4.17

Lá fora


Cada vez mais perto
Recomeçam os bombardeios

Enquanto aqui dentro
Desaparecem as últimas esperanças de continuar vivendo

Não é fácil abdicar de tudo
Para aquele que há pouco se achava dono do mundo

E agora, só queria continuar respirando
Apesar da poeira densa que sufoca este cômodo

Só queria continuar enxergando
Apesar do blackout que se seguiu ao último flash luminoso

Só queria continuar ouvindo
Apesar do zumbido deixado pelos explosivos

Só queria continuar como um ser inteiro
Apesar do corpo soterrado pelo entulho no desabamento

Só queria continuar existindo livre deste horror
E ter a morte como redenção me libertando desta dor

19.4.17

Mesmo que a cabeça viaje


E às vezes se perca no caminho
Moro aonde dormem meus chinelos
Ainda que guardados no escaninho

18.4.17

A verdade que até ontem era sólida


Está agora reduzida a uma nuvem de dúvidas
O que parecia claro e indestrutível ainda há pouco
No futuro pode não passar de uma vaga lembrança

Aconteceu justamente o que eu mais temia
Sem perceber fui tirado de sua vida
E contra isso eu nada pude fazer

E agora com o olhar encharcado
Fixo na alternância hipnótica das cores no semáforo
Para-brisa embaçado e sem clareza dos porquês

Me vejo suando frio mãos grudadas no volante
Querendo acionar a seta
Mas impedido de retornar pra você

17.4.17

Houve um tempo


Em que não cansávamos de professar juras de amor
E confidenciar um para o outro
Absolutamente convencidos
De que não conseguiríamos viver um segundo
Se não estivéssemos unidos

Mas o tempo é implacável
E no dia a dia
Castigados pelas rotinas
Fomos nos distanciando
Sem avaliar bem as consequências disto

E pela sucessão de acontecimentos
Cada vez mais imediatos
Seguimos ofuscados
Pensando apenas em apagar incêndios
E honrar aquilo que nos era exigido

Empenhamos energia demais em coisas que não mereciam
E hoje, embora juntos, nos sentimos mais do que nunca sozinhos
Perdemos muito da intimidade que tínhamos e do nosso colorido
Nem nos lembramos mais do antigo compromisso
E continuamos tocando a vida sem a certeza de ainda estarmos vivos

13.4.17

Castelos de areia


São efêmeros
Não são feitos para durar
São experimentos
Ensaios sem compromisso com o tempo
Exercícios estéticos
Que comportam riscos
Erros e acertos
Às vezes são grotescos
Outras até que bonitinhos
É bem verdade
Mas sem muitos encantamentos
Servem apenas para testar habilidades
Ou registrar algo num dado momento
O trabalho conjunto de pais e filhos
Um concurso
Um passatempo tranquilo
Numa tarde de domingo
Mas já se sabe desde o início
Que não estarão mais lá no dia seguinte
Pois não tem como resistir às marés
Às chuvas torrenciais
Aos ventos
E não há nenhum problema nisso

12.4.17

Mais triste


Que sofrer de amor
Por alguém que não te quer

É não ter experimentado na vida
Um amor sequer

11.4.17

Chega de conviver calado


Com o medo mal disfarçado
De um dia voltar pra casa
E saber por um bilhete
Deixado sobre a mesa da sala
Que não terei mais você ao meu lado

10.4.17

Esbarrar nas esquinas


Machucando-se pra valer
Colecionado feridas
Pode ser uma tentativa
Não percebida
De resistir à mudança
De algo grande em nossas vidas

7.4.17

Mais uma vez sonhei que me chamavas


E como qualquer homem
Vitimado por uma paixão desenfreada
Num instante eu aí estava.
Em frente à porta me esperavas
E com a intimidade conquistada
A tão duras penas
Dispensando palavras
Beijei-te a boca
Tomei-te nos braços
E como tantas vezes no passado
Repetimos o ritual
Já tão bem ensaiado
Com música de fundo
Seguimos para quarto.
Tomamos vinho
Comemos frutos
Nos divertimos muito
E isolados do mundo
Nos amamos sem pressa
Até sermos alertados pelo dia
Com seus primeiros raios.
Era o nosso ultimato
E como sempre acontecia
Dormindo calmamente
Eu te deixei sozinha
E saí silenciosamente
Ofuscado pela luz matutina
Para voltarmos às nossas rotinas
Reabastecidos de amor
Temporariamente saciados
E felizes com nossas vidas

6.4.17

Na natureza


É assim que as coisas funcionam
Inicialmente os lobos
Não procuram o confronto
Não encaram
Veem sem dar a entender
Que estão olhando
Circundam a presa
Testam sua guarda
Acham um espaço
Penetram e atacam
Com a certeza
De que o embate
Será breve
E logo vai se resolver
Afinal, serão eles ou você

5.4.17

Desta vez agora é tarde


Na verdade
Quer dizer
Que deste amor
Nada mais
Poderás ter

4.4.17

Achas que não sofri


Só porque não me viste chorar?
Gritei entre quatro paredes
Desmoronei muitas vezes
Fiquei sem chão
Quase morri
Tive vontade de sumir
Não podia acreditar.
E isso aconteceu
No exato momento
Em que entendi
Sem querer aceitar
Que nada é para sempre
Que era chegado o nosso fim
E que o teu olhar
Para trás
Nunca mais iria se voltar.

3.4.17

Escrever me ajuda


A romper silêncios
Exercitar delicadezas
Provocar de forma explícita
(Ou com sutilezas)
Testar reverências
Proteger sentimentos
Degustar ainda mais teus beijos
Eternizar abraços
Interpretar teus cheiros
Detalhar carícias
(Sempre tão lascivas)
Hierarquizar malícias
Inventariar teu corpo
Não aceitar esquecimentos

31.3.17

Aquilo que nunca nos dissemos


Ficou sempre escondido
Subentendido
Imerso entre versos

Na canção
Estivemos atentos ao sentido da letra
À melodia, ao ritmo

E nos incomodamos muito
Com o andamento
E excesso de pausas que nunca terminam

O refrão grita, chora
Se contorce na ira
E depois sumariamente silencia

De comum acordo trocamos de partitura
E assim outra oportunidade de corrigirmos
O andamento da música foi perdida

30.3.17

Se insistires


Em voar
O tempo todo sobre o mar

Não terás como encontrar
Um lugar para pousar

E quando nesta insensata jornada
Tua força se esgotar

Entenderás que à noite
Não existem térmicas para te elevar

29.3.17

Só há amor


Quando nos sentimos importantes
Carregando no íntimo a certeza
De que a nossa presença é relevante
E faz toda a diferença

Às vezes é estranha a constatação
De que embora o discurso seja de paixão
A atitude que se observa
Não é exatamente a mesma

28.3.17

Preciso do teu amor


Mais do que de água para viver
E é por isso
Que sem resistir
Me afogo em ti
Pois assim
Não o corro risco de morrer

27.3.17

Tens que ter mais cuidado


Pois tentando fazer tudo ao mesmo tempo
Acabas por não concluir nada direito

Com apenas dois braços
Não tens como abraçar o mundo inteiro

As coisas vão caindo, se quebrando
Ficando pelo caminho

Até que impedida de continuar
Percebes que teus pés estão cravejados com cacos de vidro

24.3.17

Com o bisturi


Se corta
E se faz cirurgia
Com a palavra
Se ilumina
E se faz poesia.

O bisturi exige o conhecimento
Aprendido de fora pra dentro.
A poesia o esclarecimento
Do que é sentido de dentro pra fora.
Ambos instrumentos
Ferramentas preciosas do entendimento.

O bisturi disseca a matéria
Escancara a lógica do corpo
E seu funcionamento.
A poesia traduz a alma
Aquilo que nos faz humanos
Nada mais
Nada menos.

23.3.17

Querida


Os incomodados
Que simulem

Ou cuidem
Das feridas

22.3.17

Minha musa


Com minhas ideias geralmente comunga.
Mas não raro irrita-se com meus pensamentos
Quer mandar em meus comportamentos
Colocar sua ordem na minha bagunça.
Menospreza o que em mim não entende
E mesmo assim se arrisca e me julga.
Comete injustiças por vezes absurdas
Mas apesar de tudo não me causa maiores ferimentos
Acho que no fundo achamos o nosso jeito
E nos entendemos sem termos que recorrer a loucuras
Do contrário não seriam dela os meus sentimentos
Penso que aceitamos bem a recíproca de nossa escravatura.

21.3.17

Vociferavas


Exigindo que eu te deixasse em paz
Que te obedecesse
E parasse de te visitar

Alegavas que do jeito que as coisas iam
A morte de um de nós
Aconteceria numa questão de dias

E agora aqui contigo nos braços
Dribladas tuas artimanhas
Que tentam a todo custo me afastar

Pedes
Suplicas
Que eu nem pense em te soltar

Que te sufoque de beijos
Que te abrace forte
Até parares de respirar

20.3.17

Depois de tanto tempo


No alto da colina
Sentado na varanda
Balançando na cadeira
Vejo passar o trem de minha vida
Pareando memórias
Com o que a paisagem mostra
Posso ter uma epifania
Um ataque de ira
Um choque de realidade
Ou tudo se revelar
Uma grande bobagem

Hoje
Não há espaço
Para fantasias do passado ou miragens
E o que de fato importa
É que o trem da minha cidade
Não costuma atrasar
Após o apito
Fecha a porta
Não atende mais a nenhum grito
E se coloca a rodar
Obedecendo ao que está escrito

17.3.17

Eu queria que soubesses


Que hoje o coração silenciou
E o que de fato ficou
Foi uma outra forma de amor
Que comporta a saudade mas não a dor

16.3.17

Engana-se quem pensa


Que se morre apenas uma vez
Identifico pelo menos três momentos
Não excludentes em que isso pode acontecer

O primeiro é quando morremos para o mundo
E o fim da carne
Simplesmente nos faz desaparecer

O segundo é quando morre a pessoa que nos ama
Nos leva junto sem que nada possamos fazer
E só dentro dela é que ainda mora esse benquerer

E o terceiro é quando precisamos morrer
No interior de quem não mais nos ama
Para liberar espaço e acomodar um outro alguém

15.3.17

Este amor


Não é o do hoje
Mas o de um outro tempo
Uma outra forma de querer.
E ainda que no passado
Não tenha sido reconhecido
É pra lá que deve ser devolvido
E precisará permanecer.

14.3.17

Não há tempo ruim acima das nuvens


Que seja este o reino
Em que finalmente conquistes
O fim das tuas dores
E a tua tão merecida paz.
Agora vai e descansa tranquila
Mãezinha querida
E leva contigo a certeza
De que o amor e a saudade
Nunca irão te abandonar.

10.3.17

Trago dentro de mim


Uns bichinhos
Que me sufocam
Me confundem o entendimento
Me imobilizam o pensamento
E não me deixam em paz.
Mas não os consigo vomitar
Chutar-lhes os traseiros
Botá-los pra fora
Expurgá-los inteiros
Xingá-los como merecem
E fechar as portas
Impedindo-os de voltar.
Às vezes surgem sorrateiros
E logo vejo que são muitos
Mostram-se sempre zombeteiros
Arruaceiros
Fazendo algazarras
Ameaças
Tripudiando de tudo
Afirmando que sou cativo
E que nunca mais vão me deixar.
É assim que tenho vivido
Como prisioneiro desses demônios
Verdadeiros parasitas viscerais
Mas agora que você está comigo
E se quer mesmo ajudar
Precisamos de um plano efetivo:
Terá que ficar ao meu lado
Colada ao meu corpo
Pelo tempo que for preciso
Pois assim que eu avisar
Ou no exato momento
Em que deixarem visíveis
Seus chifrinhos
Seus rabinhos
Ou forem ouvidos seus sarcásticos risinhos
Terá saber precisamente aonde estão
Em quais orifícios
Para arrancá-los com a mão
Um a um
Sem titubear
Ou pensar nos riscos de mutilação.
Confiná-los num baú reforçado
Atado com grossas correntes
Trancá-lo com vários cadeados
Desaparecer com as chaves
Levá-lo urgentemente
Para um lugar distante e deserto
E enterrá-lo o mais fundo que conseguir
Para que nunca mais seja encontrado
E a vida assim possa prosseguir
Sem que sejamos incomodados
Por esses encapetados mirins.

9.3.17

...como o astronauta


Que valoriza mais a nave
Seu veículo
Que o próprio infinito

Não consegue ver no céu
A beleza das estrelas
Que deveria ser de fato seu objetivo

8.3.17

Recuso-me a fazer a cama


Que até há tão pouco tempo
Nos servia
Seria fechar um ciclo
E a isso eu não me permitiria