17.1.17

De que me serve guardar todos esses escritos?


Poemas datados
Gerados em momentos específicos
Palavras carregadas de sentimento
Que vão descolorindo com o do tempo
E aos poucos se esvaziando em sentido
Ficam até parecendo fantasia sem objetivo
Aberrações paridas do próprio umbigo

16.1.17

Não entendo


Por que insistes em ler minha poesia
Se ela não te toca
Nem parece te dizer respeito?
Poesia só tem serventia
Para quem consegue extrair dela
Algum sentido ou sentimento
E isso precisa fazer alguma diferença no teu dia

13.1.17

E pensar


Que nunca me perdoei por ter ido embora
Assim, de repente.

E que arrastei por tanto tempo
A culpa por nossa história não ter chegado ao presente.

E agora, nesse reencontro patético e comovente
Ficamos em nítido desconforto ao estarmos frente a frente.

Pareando nossas trajetórias
Construídas de forma independente

Às custas de vitórias e derrotas que lemos com facilidade
Nos vincos de nossas faces, hoje tão evidentes

Concluindo que nos tornamos pessoas boas
Mas funcionando com lógicas muito divergentes.

Nenhum impasse grave demais ou intransponível
Se é que concorda, nada excludente.

Contudo, precisaríamos de um tempo que não temos
E um trabalho imenso desde o semear das sementes.

Estamos convictos de que hoje
Temos em comum pouquíssimos interesses.

E entendemos que não vale a pena grandes esforços
Para se chegar a um resultado que pode não ser suficiente.

Porém o que mais intriga é saber
Que se tivessem sido outros os caminhos seríamos diferentes

Será? E o que nos importa isso agora?
Continuamos com nossas vidas, como sempre

E se não nos virmos mais não haverá conflito
Então está resolvido, sigamos em frente!

12.1.17

A recusa


É a morte antes do nascimento
O aceite
É a consagração do oferecimento

3.1.17

Se não for com amor


Não quero.
Se não for por amor
Agradeço
Mas tô saindo.
E por favor
Não se ofenda
Vou por outro caminho.

2.1.17

Não entendo por que roubaste o meu sentimento


E o manténs assim isolado de seus companheiros
Trancado num baú de pensamentos

Pensamentos bons, ruins, mas só pensamentos
Muita gente num espaço pequeno

Fica lá tudo junto e misturado
Contido num escuro e mal ventilado

Não bastasse esse martírio
A chave jogaste no fundo do lago

É muita mágoa, não acha?
Um castigo nitidamente exagerado

Sentimento exige cuidado, não pode ser abandonado
Precisa de ar e luz para se manter vívido e renovado

Se permanece muito tempo recluso e imobilizado
Enfraquece, estiola e cedo ou tarde morre sufocado

Pense na culpa com a qual terás que conviver
Se isso acontecer de fato!

23.12.16

A vida é curta


E passa rápida demais
Preciso falar
Usar as palavras corretas
Afinal, sou poeta
Esclarecer tudo que ficou mal entendido
Para que possam acalmar teus instintos
Desfazer os vincos do teu rosto
Fazer cessar o tremor de tuas mãos
Resolver maus entendidos
Aí quem sabe voltarás a confiar em mim
Me permitindo te tocar
E despertará novamente em ti
A vontade de tocar em mim
Voltaremos assim a nos reconhecer
Resgatando intimidades
Quitando as dívidas que temos
Com nossos corpos e sentimentos
Pagando-as com multas, juros e dividendos
Desfazendo o hiato que nos mantém separados
E rouba tanto do nosso tempo
Precisamos eliminar um a um os segredos
Para envelhecermos juntos e serenos
Sentados na varanda
Lado a lado em nossas cadeiras de balanço
Corações e mentes felizes
Nos amando
E do nosso jeito

22.12.16

Na história de tua vida


Nunca cheguei a ser um livro
Acabei virando apenas um pequeno capítulo
Ou no máximo um fascículo
Que encalhado nas bancas de jornais
Hoje só pode ser encontrado em algum sebo ridículo

21.12.16

Ventos podem ser


Desde refrescantes lufadas de ar
Até ameaçadoras tempestades a nos apavorar

Mas se tens raízes profundas, suficientes para te sustentar
Apenas alguns ramos e folhas de ti conseguirão arrancar

Ventos não sabem parar
Sempre quererão passar

E tu, árvore portentosa e perene, seguirás firme no lugar
E ainda nos dará muitas flores e frutos para nutrir e encantar

20.12.16

Não quero ser


O solo compacto e argiloso
Que aprisiona tuas mágoas
Em poças espelhadas
De lágrimas frias

Verão eterno
De odores cadavéricos
Palavras vazias
E pluvial asfixia

19.12.16

Sonho


Que aos teus olhos
Sou devolvido

Que te toco
Sem ser impedido

E que nossas mãos não se separam
Mesmo que tudo seja um grande equívoco

Contudo, me afasto de ti
Para manter intactas minhas fantasias

Não as quero vestidas
Com a indigesta realidade do dia a dia

16.12.16

O quarto vazio


Quando não nos recebe assim juntinhos
Perde o sentido de abrigo
De fiel depositário do que temos de mais íntimo
Torna-se só um cômodo imenso e frio

15.12.16

Hoje


Em tuas palavras
É evidente a contradição
Entre o que dizes sentir
E o que professavas antes de partir.
Estas são descabidas
Destituídas de razão.
Parecem vir de uma cabeça confusa
E não do coração.
Mas o que importa isso agora?
Nada justifica a tua volta
E nem mesmo me interessa saber
Qual a tua intenção.
Pois o lugar que a ti era reservado
Já está de novo ocupado
E contigo não guarda mais qualquer relação.

12.12.16

Quem poderá dizer


Que existe amor errado
Amor condenado
Amor proibido?

Quem poderá responder

O que no amor é nocivo
Quando entre os que se amam
O consenso é conseguido?

9.12.16

Voltei


Porque não consigo viver só de lembranças
Sempre mantive a esperança
Pois sei que nem tudo se perdeu
E nosso último adeus
Se bem me lembro
Nunca aconteceu

8.12.16

Gruda em mim


Deita-te comigo
Mais uma vez
Mesmo que seja só em sonho

Dá-me teu corpo quente
E ainda que me incendeie
Por algum tempo
Deixarei de estar tristonho

Gruda em mim

Acorda comigo
Mais uma vez
Mesmo que seja só de um sonho

E morrerei satisfeito
Sabendo que nossos quereres
Não se endividaram um com o outro
E no fim selaram um acordo

7.12.16

Enfiei a lâmina de minha espada


No vão entre o batente e a porta
Para mover a tranca, invadir teu castelo
E te libertar do calabouço aonde vives acorrentada

E tu, em condição de quase morta
No trono, catatônica e coroada
Alheia e prostrada

Assistia com o olhar de quem não se importa
E expressão de drogada
Àquela minha atitude desesperada

Como se tudo fosse uma espécie de história
Com roteiro ridículo e previsível
Que para ti não significava nada

6.12.16

Meus olhos vermelhos


Esbugalhados
Insones
Exaustos
Nunca mais conseguiram dormir
Insistem em te ver
Temem que fechados
Num breve descuido
Possam te perder

Lapsos de consciência
Memórias misturando-se com miragens
Em todos os momentos e lugares
Faróis que te mantém vigiada
Prisioneira do querer
Fotograma congelado
Esforço em manter o foco exato
Olhos que se recusam a te esquecer

5.12.16

O ódio deixa rastros


Máculas
Cicatrizes
Ossadas fossilizadas

Fraturas
Perfurações
Balas disparadas

Num mundo dominado por abominações e dor
Como legar aos estudiosos do futuro
Provas de que um dia existiu algo como o amor?

2.12.16

Sim, me lembro de ti


Mas não é mais de ti que me lembro.
O que hoje carrego em mim
É uma imagem de ti.
Lembrança repaginada
Fantasia contaminada pelo desejo.
Algo que não é mais verdadeiro
Que criei mesmo não querendo.
Resultou em conformidade
Com a minha vontade.
Uma obra esculpida
Nos mínimos detalhes
Ao longo do tempo

1.12.16

Tu carente de carícias


Mesmo admitindo que precisas
Não reages
Te deixas levar pela preguiça

Amor assim não resiste
E antes de vencer a validade
Expira

29.11.16

Por mais que desdigas


A nudez de tua boca
Não esconde
A realidade crua e nítida

Pois quando me aproximo
E me beijas
O gosto da tua saliva denuncia:

Que tuas palavras
Confusas e evasivas
Não passam de estúpidas mentiras!

Que teu hálito quente
É tua alma fluida
E aflita

Que me quer
Não me repudia
E sem mim não respira

28.11.16

O Amor


Brota da areia cinza, insuspeita
Insurgescência cristalina
Flui lenta e contínua
Fonte de especial pureza

Nasce com a certeza
Dos que marcam a existência
Toma fôlego, corpo
Cria um traçado, recebe apoios

Regalos, regatos, riachos
Junção de muitos braços
Bacia, rio caudaloso
Caminho longo e inexorável

Delta impositivo
Sutil e espraiado
Capaz de adoçar oceanos
Mesmo focado
Jamais equivocado

25.11.16

Afinal, o que significou esse amor?


Brutal e efêmero
Fogo-fátuo, hiato no tempo

Por que não restou nada de bom?
Argumentos, poesia

E as poucas lembranças
Que ainda nos atrevemos a evocar?

Parecem imagens desconexas
Ilustrações de uma ridícula ladainha

24.11.16

O poeta é um solitário


Segue em seu barco
Navegando sem considerar as correntes
Desenhando um caminho
Dispensando mapas, bússula
Farol, astrolábio
Cria seu próprio itinerário
Fazendo e desfazendo laços
Atirando ao mar o que julga dispensável
Rimas indignas
Construções medíocres
Versos sem sentido
Alega que é involuntário
É compelido a seguir
Até que seu interior convulsivo
Esteja saciado
Embora isto nunca tenha acontecido
Segue fazendo o que entende como honesto
E julga necessário

23.11.16

Perdoa


Por insistir tanto por tua boca
Sem nem querer saber
Por onde andava o teu olhar

Por insistir tanto por teu corpo
Sem nem querer saber
Por onde andava a tua alma

A paixão nos reduz a um primitivismo
Egoísta e cego
Que é só instinto

Que não pensa
Age sem medir consequências
Só enxerga o próprio umbigo

22.11.16

Na pressa insana da certeza


Antes que a morte nos surpreenda
Amemo-nos com desespero e urgência
Até que esgotemos as forças
E findemos nossa existência
Desfalecidos
Encharcados de dores e desfrutes
Gozos e transcendências
Mas sem culpas ou rancores
Para que nossas insignificantes vidas
Tenham valido a pena

21.11.16

A aliança que ostentavas


Inquebrável, luzidia
Fazia parte do teu corpo
Pois não a tiravas
Nem em nossos momentos
De maior fervor e alegria

Aliança
Que não me causava tanta tristeza
Como a indiferença vazia
Que resultou do fim desse amor
E com a qual me tratas hoje em dia

18.11.16

A Paixão


Embora seja uma fantasia
Faz com que a vítima
Se sinta viva
Alucinada
Destemida

Faz perder a autonomia
Dirige seu destino
E a faz adotar caminhos
Às vezes labirínticos
E de difícil saída

Ela gosta disso
Fica insensível à dor
Seu olhar permanece altivo
Um zumbido agudo no ouvido
E no peito uma contínua taquicardia

Mas um dia
Tudo termina
Isso já foi registrado
Ao longo dos séculos
Por incontáveis escribas

E só o tempo
Senhor dos destinos
É capaz de saber
Como há de terminar
Mais essa viagem entorpecida

17.11.16

Se não houve ilícito


Não pode haver culpa

E sem culpado
Não pode haver condenação

- Então, sumam já daqui
Com este cadáver alvejado no coração!