29.11.13

Novembro se vai



E quase leva consigo
As cores e aromas
Da primavera

Recebeu as chuvas
Que chegaram tímidas
Caindo devagar
Vieram sem avisar

Aceleraram-se os passos
E os corpos já suados
E nem tão cobertos
Ficaram mais molhados

E ninguém sabe ao certo
O que esperar
E nem quanta água ainda virá

28.11.13

Dou um nó no rabo do diabo



E saio correndo
Enquanto há tempo

Me esquivo da onça
Lendo nos olhos dela o pensamento

Me antecipo ao bote da cobra
E com o meu porrete quebro sua coluna ao meio

Desvio das garras do dragão
E com um só golpe do facão voam cabeça e membros

Chego tarde em casa
Com bafo forte de cachaça

E apesar da esperteza e da coragem
Das histórias contadas com tanta graça
 
Sou puxado pela orelha
Obrigado a jantar comida fria

E ainda a cumprir o castigo
De lavar a louça suja

Que se acumulou na pia
Sem direito a sobremesa

27.11.13

Não te decepciones



Caso não o encontres
Com o coração ferido

Não há como morrer
Para alguém

Sem que para este
Pelo menos se tenha existido

26.11.13

Há dias



Em que não me cabem
As metades
Outros dias há
Em que mais de uma metade
Me falta

25.11.13

O som do mar gravado na concha



Permanece para sempre
Assim como este amor que carrego
É teu
E em mim residente

A certeza de que continua vivo
É fácil de se confirmar
Basta chegar mais perto
E a tua orelha no meu peito encostar

22.11.13

Não consigo estar nu



Mesmo me desfazendo
Dos 1495 gramas em mim anexados

Calça
Camisa

Carregados como um fardo
Ainda 885 gramas de penduricalhos

Sapatos
Meias

Atrás destes 205 gramas que restam
Outros dezenas de milhares (envoltório que me cerca)

Cueca
Relógio

60000 gramas absolutamente colados
E se um dia finalmente conseguir tira-los

Por debaixo deste casco
Terei garantias de ser encontrado?

21.11.13

Nada permanece igual para sempre



Nem mesmo a dor
Que se sente

Por mais infinita
Que possa ser no presente

19.11.13

Leio



Os poemas de amor
Que um dia te dediquei
Cadernos imensos
Carregados nas tintas
Pois assim os senti
Assim os elaborei

Ficamos eu e os versos
E agora que há tempos não estás
Do lado de cá
Estas palavras tão densas
Insistem em viver
Querem respirar

A metade que arrancaste
De minha carne
Foi trancada numa mala
E com muita dor tive que vê-la partir
Não sei se ainda vive
E se ainda te faz companhia

Quisera notícias
Daquela parte que me foi roubada
Preencher o oco que não cicatriza
Calar o eco eterno do meu choro
Que vaga por todos os meus cômodos
Como um mal assombro

18.11.13

Que mensagem tentas me passar



Que segredo queres me revelar
Quando em silêncio
A mim te apresentas
Vestida com tanta tristeza

Tristeza imensa e mortal
Que só sobrevive
Enquanto não se deixa deter

Pior seria
Insolúvel talvez
Se fosse uma tristeza reclusa
Daquelas que não se permite entender

14.11.13

Choremos



Não pelo peso das palavras
Sempre tão carregadas de sentimento
Mas sim pelo tempo
Barreira e causa de tantos impedimentos

Choremos

Pela distância tão duramente imposta
Pelas vontades não realizadas
E as lembranças
Que invadem nossos pensamentos

Choremos

Não lágrimas de tristeza mas de conforto
Pela certeza de que estamos vivos
E de que o que sentimos ainda é amor
O mais puro e verdadeiro

13.11.13

Entro na nave


Através do espelho
E sem dificuldades entras logo atrás

Cerramos portas e janelas
Para que seguros possamos embarcar

Decolamos
Rumo às estrelas

Percorrendo terras distantes
E mesmo o fundo do mar

Trafegamos por desertos
Impenetráveis selvas

Picos nevados
E até um vulcão prestes a acordar

Orientamo-nos apenas
Pela luz das labaredas

Que o nosso amor
Jamais deixou de emanar

12.11.13

De nada me adianta



Buscar outros corpos
O fundo de outros olhos
Se é somente a ti
Que quero encontrar

Se é o teu rosto que vejo
Na borra que fica
Quando o café termina
E distraidamente examino
O fundo da xícara

11.11.13

Quero que hoje



Uma ponte entre céu e terra
Se estenda
Que a água desça com gentileza
A tudo molhe e abasteça

Para que o que ainda dorme
Germine e cresça
Com vigor e nobreza

E o que até agora esperou
Com tanta paciência
Seja agraciado
Por sua resiliência

Para que a vida se renove
E que viver
Continue valendo a pena

8.11.13

Poemas salpicados no espaço



Frases sem sentido
Rimas sem compromisso
Coração galopante e ritmado

Estrelas se despregando dos cabelos
Pelo vento espalhadas
Em falso acaso

Arfantes suspiros
Canções que da cabeça transbordam
Abundantes suores sustenidos

A busca obsessiva por teu abrigo
Por invadir teus compartimentos mais íntimos
E materializar sentimentos de sonhos antigos

Rastros diversos e fugidios
Pontos de fogo que se iluminam
Por onde passo

Rastros de versos
Marcas que no caminho
Deixam meus sapatos

Para que ao fim de tudo
Mesmo no silêncio e no escuro
Feliz e saciado

Com os pés desnudos
Esteja seguro ao retornar
Por um granito tão bem assentado

7.11.13

Quero minha boca



Colada na tua
Num beijo hermético
E de inquebrável liga

Que nossas línguas
Flutuem no espaço
Sem gravidade

Se enrosquem
E consigam invadir domínios
Até então insondáveis

E que a separação
Quando tiver que acontecer
Seja breve

Apenas para que o ar não nos falte
O oxigênio necessário
Para que a vida não cesse

Que tenhamos ferramentas
Para decifrar códigos e enigmas
Compreender as estrelas

E continuar nesta jornada
Alimentada por palavras
Que prestam ao amor reverência

4.11.13

Quero ser sufocado



Por carinhos e cuidados
Sem ter como deles escapar
E quero já
Esse medo esquisito
De ter sido esquecido
De não ser mais imprescindível
E de que nossos caminhos
Possam estar divergindo
Me apavora
E é difícil de suportar

Preciso saber de uma vez
Mesmo que depois disso
Eu venha a morrer
Se após tanto tempo
Ainda sou merecedor
De algum apreço?

Se no fundo do teu peito
Sobrou alguma coisa
Que me diga respeito
E resta ao menos
Uma raspa de amor
Que eu possa entender minha
E considerar como direito?

1.11.13

Hoje não tenho como te dar



Nada além do que em tua pele posso gravar
Um pequeno sinal em lugar tão delicado
Me permite estar mais perto de ti
Alonga um pouco o nosso tempo escasso
E faz com que eu seja não só uma boa lembrança
Mas a renovação do desejo
E a certeza de um amor dedicado