31.7.15

Je me suis réveillé à la vie



Juste au moment où
Je vis qu'il avait pas
Personne d'autre
Pour vivre ensemble
Le reste de mes jours

30.7.15

Pessoas



Podem de certa forma ser entendidas
Por seus comportamentos e funções
Também conhecendo suas trajetórias
Resultantes vetoriais e geometrias

Exitem as retas
São flechas
Gostam de se projetarem para frente
Movimentam-se sempre na mesma direção
Mantém previsibilidade
Coerência e razão
Guardam uma ligação contínua com o passado
Sentem-se seguras com este lastro
Ficam mais tranquilas
Quando olham para trás e vêem o próprio rabo

Também existem as circulares
Que não conseguem se desvincular
Não avançam
Podem até se afastar
Mas estão sempre ao alcance do olhar
São monótonas
São rodas
Voltam regularmente para o mesmo lugar
Nunca se cansam de recomeçar

A mistura de ambas pode gerar objetos diversos
Como bumerangues e parafusos
São personalidades complexas
E muito mais curiosas
Os bumerangues realmente aventuram-se pelo mundo
Mas cedo ou tarde retornam ao seu núcleo
Os parafusos são mais restritos
Podem ir para dentro ou para fora
Mais superficiais ou mais profundos
Mas dependem sempre de ferramentas
E de quem as labora

Todos os dias reconheço
Outras personalidades puras e misturas
Elas são muitas
E só como exemplos:
Calços
Alavancas
Rochedos
Pastéis de vento
Liquidificador
Pontes
Mochilas
Metralhadoras
Temperos
...

29.7.15

Nestes tempos



Em que predominam atitudes e o olhar blasé
Em que a tecnologia é quem dá o tom e o andamento

Em que tudo parece relativo e efêmero
O sujeito vai ficando cada dia mais embotado e alheio

E enquanto as mentes não estão totalmente destruídas
E ainda podem ser resgatadas para a vida

A poesia é a forma de expressão
Que tem algum poder de mudar a situação

Linguagem curta e adensada
Que tanto significa, valorizando a língua

Pois quando desaparece o texto, o leitor
A crítica, o questionamento

Para garantir um pensamento menos raso
Um viver mais intenso

Resta uma esperança:
Versos para salvar um mundo que agoniza!

Manter ativo o que nos faz únicos
Oferecer argumentos

Ao processador de emoções
Que carregamos em algum lugar aqui dentro

Criar dados dignos
Arquivos com significado

Para que nossos filhos
Recebam algo que lhes seja útil como legado

Ferramentas e insumos que contribuam
Para a construção de um sentir mais libertário

28.7.15

Vous insistez



Je commence à vous mépriser
Or turning dans sentiment le plus dégoûtant

Je travaille tout le temps
Pour éviter le trésor tour boues

Et quelle catastrophe jusqu'à présent impossible
Matérialise et devient irréversible

27.7.15

Madrugada fria



Céu limpo de um azul profundo
E ainda escuro
O amanhecer chega devagar
Cheio de nuances

Cores divergentes e encantamentos
Para onde quer que o olhar se lance

Pintura executada por alguém
Que na certa entende bem daquilo que faz
E o faz direito

Paro num semáforo
E uma mancha escura se aproxima

Uma figura humana
Muito suja e maltrapilha
Cabelos espetados
Rosto transfigurado
Um paninho puído amarrado no punho

É o craqueiro daquela esquina
Lembrei já tê-lo visto outras vezes
Sem repará-lo direito
Nesta mesma avenida

Chega junto ao carro
Pegunta se pode limpar os vidros
Fala de forma truncada
E pede uns trocados

Vão ficar ainda mais sujos
Pensei
Pegou-me desprevenido
Concordei

Faz tudo muito rápido
Tem o tempo como adversário
Está em nítida abstinência
Está desesperado

Completa o serviço
Separo algumas moedas
Dou a entender que já é suficiente
E de dentro sinalizo para que receba

Apanha o bônus com um sorriso tenso
Mas surpreendentemente largo
E me estende aquela sua mão imunda
Que inexorável
Através janela me invadia

Deixou-me sem jeito
E sem pensar aceitei o cumprimento

Senti força
Sinceridade e agradecimento
Naquele gesto ordinário
Naquela simples formalidade

O farol se abre
Sigo em frente de volta ao roteiro

Com a brisa fria no rosto
O azul agora muito claro
E um sol gigantesco
Já redontamente ocupando o retrovisor direito

24.7.15

I gave you



What no one else
Can give you
A love made for you

As you are
Not what they want to be
Or appears to be

23.7.15

Foi tão custoso para a seleção natural



Aperfeiçoar nossas mãos
Deixá-las livres, tirando-as do chão

Foi tão vantajoso para a espécie
Fazer com que deixassem de ser só sustentação

Isso nos fez crescer em conhecimento, artes
Ofícios e experimentação

Mas numa questão de segundos
Marcados no relógio da evolução

O celular passou a ser o foco absoluto
Ocupou-as demais e ainda nos encurtou a visão

E assim as mãos que antes nos descortinavam o concreto
Eram ponte para o mundo da abstração

Agora são ferramentas inúteis de um universo acabado
Frente ao qual somos impotentes, não mais que ilusão

Ficamos piores que um urubu sem asas
Dependentes de tudo em nome de uma pseudoconexão

22.7.15

Queria que um dia



Todos os pensamentos
Que se debatem em minha cabeça
Quando encontrassem uma saída
Só se atrevessem a ganhar o mundo
Já com a metamorfose completada
Fortes asas
E transformados em poesia

21.7.15

Tem dias



Principalmente quando faz frio
E chove

Que olhando o cinza
Algo aqui dentro se move

O pensamento não para
Uma tristeza se instala

E não é possível pensar em outra coisa
Que possa deixar a cabeça menos doida

Me ocupa a palavra
Assume o controle da fala

Me faz repetir em silêncio
Uma só frase, um lamento

Uma ladainha
Que não varia

Uma musica chiclete
Que como um tirano me persegue

Me mantém escravo, agindo sem piedade
E se diverte com o tamanho da sua maldade

20.7.15

Não aceitarei mais o seu amor



Se não puder usá-lo
Como bem entender
Abusar de seus predicados
Fazendo jus a tudo que mereço ter

Os anos passados
Me fizeram ver
Que pouco comprometimento
Não satisfaz mais
A mim e nem a você

Fica muito aquém do aceitável
E amor não é algo descartável
Se é pra valer
Tem que estar inteiro
Sujeito à plenitude do querer

17.7.15

A pior coisa que pode acontecer no amor



É a perda da palavra

O hiato
O silêncio
O vazio

É não se enxergar mais o caminho da retomada

Quando os contornos desaparecem
O sentimento se esfarela
Volatiliza

E tudo fica muito sem graça

16.7.15

Pela manhã



Olhando no espelho
É mais fácil de aceitar e entender

Que não tenho como te dar
Tudo o que queres e mereces ter

Mas na medida em que o dia avança
A saudade só faz crescer

E a convicção outrora tão decidida e altiva
Pouco a pouco começa esmorecer

Até que à noite
Já moribunda e delirante

Só tem como ser salva
Se conseguir mergulhar em sono profundo

Mas para isso precisa estar adequadamente vestida
Pelo álcool e por um sonho

Pois do contrário
Sufocada pela realidade

Não resiste ao dia seguinte
E morre colocando tudo a perder

15.7.15

Today



When I woke up
All I didn't want

It was to have again
That make my way

And face alone
Another miserable day

14.7.15

Não enveredemos



Pela rota das tristezas
Conhecê-las bem
De nada nos adiantaria

Se já é tão difícil viver sem certezas
Por que então se arriscar a outras arranhaduras
E ter que colecionar ainda mais feridas?

13.7.15

Par notre amour



Le soleil de minuit
Brille toujours

8.7.15

A espera pode não ser longa demais



Quando quem espera
Sabe
Que o objeto desta sua espera
Cedo ou tarde
Vai chegar

E aproveita
Esta mesma espera
Para tirar dela algo que o alimente
E não fique tão somente
A esperar

7.7.15

Espelho implacável



O peso dos anos me verga as costas
Mas a alma insiste em manter-se aprumada

Me enruga a pele
Mas os sentimentos ainda me ardem

Me ofusca a visão
Mas não o paladar

As limitações aumentam
E o universo é um banquete intacto a ser degustado

A morte se aproxima
E o que há para ser feito jamais será terminado

Não se pode driblar o tempo
Fazê-lo passar ao largo

Dar-lhe um tapa no traseiro
Mandá-lo para a rua brincar

Dixá-lo por lá
Até que ao anoitecer seja chamado

E quando retornar
Que deixe os sapatos sujos do lado de fora

Tome um banho bem quente
Um prato de sopa reforçado

E não se deixe levar pelo sono
A menos que num belo sonho seja embarcado

6.7.15

Até para morrer



É preciso
A vida
Fazer valer

Senão
Não se morre

Simplesmente
Se desaparece

3.7.15

Uma última taça de vinho



Cadeiras que se afastam da mesa
Cadeira que se aproxima da mesa
...
- Um café e a conta, por favor!

2.7.15

Mas se nada nunca existiu



A única verdade a ser dita
É que se não foi ilusão
Então foi mesmo uma grande mentira

1.7.15

A terceira (e última) parte da saga



A mim foi narrada
No alto de uma montanha
Na cordilheira do Himalaia
Por um sherpa esgotado pelo esforço
Após uma fracassada tentativa
De atingir o topo

O vento forte e cortante
As frequentes avalanches
E o ar rarefeito
Nos obrigaram a cavar um buraco no gelo
E aguardar acordados o fim do tormento

E enquanto o tempo passava
O nativo assim falava:

“Conformada com a partida do Menestrel
Seguiu a Rainha com sua busca por um esposo
Tendo que escolher entre os nobres das cortes amigas
Um cavalheiro que por razões de Estado
Se mostrasse a opção ideal ou mais viável
E que não abalasse os ditames da nobiliarquia

Acabou por aceitar proposta
De um jovem Delfin
Mancebo de muitos requintes
E modos por demais delicados
Descendente direto do Rei Sol

Orgulho de sua família
Sempre coberto de plumas e brocados
Herdeiro de um vasto império
Pelos quatro continentes espalhado

Dotado de um olhar evasivo
Sempre voltado para o infinito
Sem nunca atentar para quem estava ao lado

O casamento foi celebrado
Sem demora ou embaraço
Pois tensões de fronteira
Necessitavam de soluções ligeiras
Que evitassem a guerra
E inocentes perdas

Seguiu-se um tempo
De absoluta calmaria no Reino
Mas cinco anos se passaram
E o abençoado matrimônio
Não conseguia dar ao povo
O herdeiro tão esperado

Observando que desta forma
Não aconteceria a procriação
Os conselheiros da corte
Propuseram uma à Soberana
Uma engenhosa solução

Os anciões se revesariam em fila
Em visitas íntimas ao gabinete da Rainha
Até que tal operação redundasse
Na tão desejada gestação

Seria desta forma o rebento
Independente do pai que teria
Fruto da mistura dos mais puros sangues
Daquelas nobres dinastias
Não podendo nascer nativo mais perfeito
Fosse varão ou rapariga

A iniciativa foi perpetrada
Não demorou muito mostrou-se acertada
E a gravidez foi por todos festejada
E salvaguardada com todas as atenções necessárias

Até que em nove meses a nação foi brindada
Com uma menina de imaculada perfeição
De pele muito alva e delicada
Pérola de beleza nunca antes observada

A Princesa cresceu cercada de mimos e privilégios
Preparada por sábios de renome
Talentos de todas as artes e estilos
Treinada em línguas
Nas práticas da guerra e da política

Uma verdadeira líder para o povo
Que já desde a adolescência
Mostrando têmpera e incomum discernimento
Poderia ser recrutada a qualquer momento
A conduzir os destinos do Reino

...

Enquanto isso os ciclos da natureza seguiam
As águas oceânicas foram baixando
E as antigas terras submersas
Emergiram carentes de atmosfera

O Príncipe herdeiro atento aos acontecimentos
Retornou com o remanescente de seu povo
Para reconstituir sua tribo
Por tantos anos exilada em terras distantes
Nunca configurada como solo de suas raízes


Ao tomar conhecimento
Do ressurgimento do antigo arquipélago
E confirmando no mapa que ele se situava
Em áreas territoriais do Império
A Rainha programou-se para visitar seus novos domínios
Para inventariar o terreno ordenar a construção de benfeitorias
E a fundação de cidades

Surpreendeu-se ao quando lá chegou
Defrontando-se com um povo altivo e determinado
Uma comunidade colaborativa e entusiasmada
Já com suas casa erguidas de forma muito criteriosa e organizada
Que aparentemente não se sujeitaria a um reinado desconhecido
Ou poderia servir de mão de obra escrava
A comitiva real ao desembarcar na ilha principal
Evocou a presença de quem pudesse falar
Em nome de todos aqueles cidadãos
Aparentemente tão felizes e saudáveis

Foi foi conduzida junto ao Representante daquela gente
Que os recebeu de forma firme e amigável
Deixando claro que visitantes seriam sempre bem vindos
Desde que se comportassem como bons amigos
Respeitando a liberdade e tradições do lugar

Iniciaram assim rapidamente entendimentos
Para que não houvesse dúvidas injustiças

A comitiva também era composta pela bela Princesa
Que ao fazer sua primeira contribuição ao colóquio
Não conseguiu se desviar o olhar encantado do jovem Monarca

Uma ligação sobrenatural
Fortíssima e inexplicável
Se estabeleceu de imediato entre o Príncipe e a Herdeira
Como se as almas se completassem naquele preciso átimo

Ficando claro que não haveria beligerância
Mas sim harmonia e tolerância

Decidiu-se que o arquipélago
Seria considerado protetorado autônomo do Reino
Tendo suas leis e direitos conservados
E que iniciaram-se os preparativos
Para que se efetivasse a união do magnífico casal
Recém formado

O matrimônio aconteceu como programado
E num e como uma consequência inevitável
Num breve intervalo surge um varão
Rebento de pura estirpe
De nobreza e autenticidade ligada à renovada nação
Seguindo-se assim um período de paz, fartura e felicidade


Alguns anos se passaram
E após vagar pelo mundo
Sem saber que o filho tinha sobrevivido
O forasteiro já velho e cansado
Lembra de seu passado

Ao adentrar acidentalmente ao Reino
Que tantos sentimentos um dia lhe despertaram
Vê a distância o velho Palácio
Mas não se atreve a tentar aproximação
Para não correr o risco de reativar sua antiga paixão

Foi então que na estalagem em que se hospedou
Soube da incrível história das terras que do mar brotaram
E do jovem casal de Monarcas que hoje lá habitava
Uma história de felicidade que até hoje perdurava

Imediatamente o andarilho percebeu
Que o tão aclamado Rei do lugar
Era seu filho que considerou morto ou desaparecido

Conseguiu um barco e rumou com urgência em direção às ilhas
Uma vez frente ao Soberano
E logo que se viram
Ocorreu o imediato reconhecimento

O jovem Regente
Exultante
Declarou em alto e bom som
A todos os presentes:
Este é meu pai
O verdadeiro Senhor deste lugar
A vida nos afastou
E hoje nos reúne nos tornando ainda mais afortunados

Apresentou-lhe sua esposa de beleza ímpar
O neto tão cuidadosamente criado
Herdeiro futuro de mares e terras infinitas

Mas impressionou-se com a semelhança da jovem Rainha
Com a da antiga Senhora
Considerando impossível não ser ela
Filha daquela mesma Dama

Trajou-se de forma digna e apresentável
E retornou ao Castelo
Inundado por lembranças daquele amor do passado

Ao defrontar-se com a figura
Da Soberana viúva
Refez-se de imediato o laço de ternura

Decidiram naquele momento
Que desta vez sem feitiçarias ou encantamentos
Não mais se separariam
Pois suas vidas de alguma forma
Sempre estiveram ligadas
Apesar das desventuras e do tempo

E agora com seus filhos unidos e realizados
E um neto coroando de vez todos os sentimentos
Tinha ficado claro como é caprichoso o destino
E como é impossível nos desviarmos
Daquilo que para nós foi escrito ou ficou reservado”

Final adocicado?
Feliz demais?
Um tanto bobo (devo admitir)
Mas, paciência, foi o melhor que consegui
Para encerrar esta história de uma vez!